Enquanto lia esse trecho das Sagradas Escrituras, fiquei pensando no quão fácil é amar o mundo e o que nele há. Afinal, nós vivemos aqui. Acordamos todos os dias para trabalhar ou estudar, fazemos amizades ao longo dos anos, saímos para nos divertir, temos nossos momentos de descanso, seja em uma viagem, seja dentro de casa.

As mulheres cuidam dos afazeres domésticos: roupa para lavar, casa para varrer ou até mesmo um cômodo para decorar e deixá-lo mais aconchegante. Além disso, no presente século muitas delas trabalham fora de casa e ainda precisam lidar com as atividades de sua área.

Os homens, por sua vez, estão focados em trazer dinheiro para casa. Trabalham, trabalham e trabalham. Em seus momentos de lazer, jogam vídeo games e futebol, saem para caminhar ou preferem sentar em seus sofás e assistir a um bom filme ou série. Além disso, ele ainda precisa estar presente para a mulher e para os filhos, ensinando-os e educando-os dia após dia com sua esposa.

Os filhos – meninas e meninos – estão estudando e se esforçando para passar em uma universidade ou simplesmente para aprender a fórmula de Bhaskara. Precisam estar na moda para acompanhar seus colegas de classe, buscam ter os melhores celulares, as melhores roupas, os melhores jogos, o melhor cabelo, a melhor maquiagem – seja pedindo tais coisas aos pais, seja trabalhando para conquistá-las.

Quantas coisas fazemos no nosso dia a dia para nos mantermos como homens, mulheres e filhos? A sociedade nos cobra cada vez mais, e com o passar do tempo, devido ao turbilhão de afazeres da vida, desenvolvemos problemas como ansiedade, depressão e outros distúrbios. De repente, estamos com desordens emocionais devido a pressão do trabalho e desenvolvemos problemas que passam a afetar também o nosso corpo.

Isso porque citei acima os casos normativos da vida de uma mulher, um homem ou um filho. Mas e quando a mãe ou o pai são solteiros? E quando o filho precisou ser criado pela avó, ou logo cedo precisou trabalhar e abandonar os estudos? Enfim, os cenários são os mais diversos.

A pergunta que fica em meio a tudo isso é: como não amar o mundo se vivemos nele? E precisamos entender o amplo sentido da palavra “viver”. Nós estamos nele, nos movemos nele e existimos dentro dele… Essa frase te parece familiar?

Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração.” Atos 17:28

Se olharmos para o nosso dia, perceberemos que a frase citada fora de contexto faz muito sentido e, (talvez) por isso, em Atos temos a declaração de que não deveria ser assim. Na verdade, precisamos viver em Deus, nos mover em Deus e existir em Deus. No verso 29 somos chamados de “geração de Deus”, e aqui quero retomar os versos citados por João e a pergunta que é título deste texto.

O que fazer para não amar o mundo?

Meu objetivo aqui não é entrar em questões teológicas, mas trazer para a simplicidade do nosso entendimento o que fazer diante dessa situação complexa. Responder à pergunta acima não é tão difícil. Se dermos uma passada em alguns versos da Palavra de Deus, será fácil respondê-la, mas quero trazer apenas dois pontos que podem nos ajudar a praticar o que está escrito em 1 João.

Saiba a que Reino você pertence

A resposta mais óbvia e menos espiritual a essa pergunta poderá ser: “Se estou no mundo, pertenço a este mundo”, mas para nós, cristãos, dizer isso é uma afronta, certo? Aprendemos que, mesmo estando neste mundo, não podemos viver como se fôssemos dele.

Ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho amado.” Colossenses 1:13

Por causa do pecado de Adão, todos caíram e foram destituídos da presença de Deus (Romanos 3:23), mas através do sangue de Jesus – que viveu nesse mundo vencendo todas as paixões do Maligno e dedicou a sua vida ao trabalho no Reino enquanto estava aqui -, da sua morte e da sua vitória contra o pecado, Ele mesmo, com sua forte e poderosa mão, nos transportou, nos retirou, nos resgatou, nos livrou, nos removeu, nos arrancou do império das trevas que reina neste mundo devastado pelo pecado. Ele mesmo, com a sua forte e poderosa mão, nos trouxe ao seu Reino onde há seu amor, graça, misericórdia, compaixão e alegria.

Podemos dizer que no mundo espiritual não habitamos mais no reino de Satanás. O que antes era trevas, agora é luz. Onde abundou o pecado, superabundou a graça, e hoje somos livres em Deus. Temos um novo nome. Não vivemos mais a vida que tínhamos, mas a vivemos em Deus. Agora, sim, passamos a viver, nos mover e existir Nele.

Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês.” Mateus 6:33

Por esse motivo, a nossa prioridade, mesmo vivendo neste mundo, não está mais aqui. Mesmo que trabalhemos e estudemos, fazemos tudo isso para a glória de Deus (1 Coríntios 10:31).

No trabalho:

Em nosso trabalho somos honestos, bons servos. Não pegamos o que não é nosso e servimos ao nosso patrão ou empresa como se estivéssemos servindo ao Senhor (Efésios 6:5).

Na escola:

Em nossa escola ou universidade, não nos assentamos com os escarnecedores, não desejamos estar ou viver como eles, nem mesmo estamos perto das más conversações que corrompem os bons costumes (Salmos 1; 1 Coríntios 15:33).

Nas amizades:

Todas as nossas amizades são honestas e nos aproximam de Deus. Não andamos com os tolos, mas nos aproximamos dos sábios (Provérbios 13:20). Não nos associamos com aqueles que deturpam a Palavra de Deus, nem mesmo comemos com eles (2 João 1:10). Não conversamos nem comemos com os que se dizem cristãos, mas praticam obras que provam o contrário (1 Coríntios 5:11).

Ou seja, em todas as coisas da nossa vida nesta terra buscamos o Reino e a Justiça de Deus, pois sabemos que não pertencemos mais a este lugar. E aqui vem o segundo ponto.

Se conecte com as coisas do Reino a que pertence

Amados, insisto em que, como estrangeiros e peregrinos no mundo, vocês se abstenham dos desejos carnais que guerreiam contra a alma.” 1 Pedro 2:11

Estar em uma terra estrangeira como peregrino é estar no meio de pessoas que não falam a mesma língua que você fala, que não possuem a mesma cultura que você possui. Se você já viajou para outro país ou até mesmo para outro estado, viu como isso é real. Lembro que uma vez fomos de carro para Minas Gerais (eu e meu esposo) e, ao pararmos em um posto de combustível, levamos 5 minutos para sermos atendidos, mesmo não havendo nenhum outro cliente no local. Foi quando percebemos que, ao sair de São Paulo, levamos nosso costume de sempre estar correndo para um lugar, mesmo não havendo motivos para isso. Nós estávamos acelerados porque vivemos assim. Aquele rapaz de Minas estava proseando e já iria nos atender, afinal, para ele não havia motivos para pressa.

Também me lembro de muitas vezes não entender o que as pessoas estavam falando. O sotaque era tão diferente do meu que meus ouvidos precisavam ficar atentos, sem citar as palavras diferentes que eram utilizadas. A comida tinha outro sabor, era mais natural. A salada não havia sido comprada no supermercado, era cultivada no fundo de casa. Até o feijão tinha uma cor diferente.

O que quero dizer com este exemplo é que eu estava em um lugar que não era meu. Vivendo, me movendo e existindo em um ambiente totalmente diferente do que eu estava acostumada, sendo uma peregrina e estrangeira naquela terra. Mas e se eu passasse a morar lá? Certamente meu sotaque mudaria, assim como meus horários de trabalho e até mesmo a minha alimentação.
Bem, quanto mais distante estou dos meus compatriotas, quanto menos falo a língua do meu local de origem e quanto mais deixo de praticar aquilo que é tradição em minha terra natal, mais distante eu fico dela. Vamos traduzir? Quanto mais distante eu estou da Igreja e da comunhão com meus irmãos, quanto menos eu falo a língua dos crentes e com os crentes, quanto menos eu pratico o que é comum, sendo tradições ou ordenanças, mais distante eu estou do Reino de Deus.

Por isso, o primeiro passo para não amarmos o mundo é termos plena certeza e convicção de nossa nacionalidade. Se somos do Reino da Luz, não compactuamos com os prazeres das trevas. Não falamos a língua do mundo, não praticamos suas tradições. Não nos relacionamos com aqueles que nos afastam da luz, antes jogamos a luz de Cristo neles, demonstrando em todas as nossas ações e palavras que somos estrangeiros.

CUIDADO! Quanto menos consciência e certeza eu tenho de onde vim, mais riscos corro de amar um lugar que não é meu.

Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno.” João 17:15

Dia após dia somos afrontados pelo mal que está no mundo e por todos os seus prazeres. Dia após dia estamos diante do pecado que nos cerca e tenta nos afastar da presença de Deus. Temos a promessa de que um dia nos encontraremos com o nosso Salvador e viveremos diante Dele. Lá, não haverá choro, morte, lamento, tristeza ou qualquer outra coisa que nos lembre do pecado (Apocalipse 21:4). Porém, até que este dia chegue, que possamos pedir a Deus, assim como Cristo fez em sua oração, que Ele nos proteja do Maligno.

De forma mais prática e direta: não se afaste da Igreja, não deixe as reuniões dos santos (Hebreus 10:25), não pare de ler a Bíblia (Josué 1:8) nem de guardar todos os dias para Deus (I Coríntios 10:31). Não deixe de orar nem de ter seus momentos de devocional (1 Tessalonicenses 5:17). Não pare de lutar contra o pecado nem se entregue às paixões deste mundo (Mateus 26:41; Gálatas 5:24). Não deixe o jejum (Mateus 17:21). Não pare de cantar louvores (Colossenses 3:16). Não deixe de trabalhar no Reino nem de dedicar seus dons e talentos na igreja, servindo aos irmãos (1 Pedro 4:10). Porque quanto mais distante disso estivermos, mais amor ao mundo haverá dentro de nós.

Concluindo…

Quando tivermos ciência de que não pertencemos mais a este mundo e nos conectarmos com tudo o que é do Reino de Deus, dificilmente haverá espaço em nossos corações para o amor ao mundo, muito menos para o que nele há. Dentro de nós, não haverá necessidade de trazermos as coisas mundanas para a Igreja, um lugar santo, pois estaremos plenamente satisfeitos em Deus. Além disso, se assim o fizermos, o amor do Pai estará dentro de nós e Nele habitaremos para sempre.

Que os nossos corações possam arder pelo Reino de Deus, ansiando pela sua vinda, e que, enquanto estivermos nesta terra, possamos declarar as mesmas palavras de Davi:

Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei: que possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do Senhor, e inquirir no seu templo.” Salmos 27:4