Há algumas pessoas mais detalhistas que outras, isso é verdade. Há quem perceba que a costura de uma blusa está desalinhada, e há quem, digamos, não consegue perceber detalhe nenhum. Eu sou da segunda turma.

Contudo, há algum tempo venho me tornando mais detalhista em relação à criação. Eu li em algum livro o autor falando de como Deus era criativo e como a criação nos faz olhar para Ele. O exemplo que me lembro era sobre as folhas das árvores. Deus poderia ter feito todas elas de somente uma tonalidade de verde. O verde poderia ser de um tom só. Todas as árvores do mundo com as mesmas folhas verdes.

Mas não! Deus fez um tom diferente de verde para cada planta, assim como uma folha específica para cada uma delas. Uau! E da mesma forma, fico extasiado ao olhar para o céu. Um tom de azul para cada hora do dia. Isso só me faz pensar no Salmo 19:1 “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.

E é um pouco disso que vamos falar hoje, de como contemplarmos a criação e os eventos da vida pode nos fazer mais cristãos. Não, só olhar a criação ou apreciar sua beleza não vai te redimir, mas toda a criação aponta para o Criador, de forma que nós, cristãos, precisamos olhar e apontar para Cristo.

E para fazer isso, eu quero trazer três momentos que nós contemplamos algumas vezes ao longo de nossas vidas, mas que nem sempre damos a devida atenção:

  1. Nascimento de um bebê
  2. Nascer do sol
  3. Visita a um cemitério

Vamos lá?

Nascimento de um bebê

Talvez a nossa primeira reação ao ir visitar um bebê recém-nascido seja algo como: “Olha que belezinha”, “Que bonitinho”, “É a cara do pai” ou “É a cara da mãe”. É normal, é belo. Nós apreciamos bebês porque sabemos, de uma forma ou de outra, que eles são parte de nós, que eles são seres que inspiram cuidado, amor, carinho. É natural que gostemos deles.

Mas o nascimento de um bebê não é belo só por isso. Não apreciamos um bebê recém-nascido só porque é bonitinho.

Quando penso no nascimento, eu não consigo deixar de pensar em todo o processo de gestação pelo qual a mãe passou, o qual o pai acompanhou. Para quem se lembra das aulas de Biologia, se recorda de que tudo começa com um óvulo e com um espermatozóide, duas células reprodutivas. E ali começa, com duas células, o que um dia vai se tornar algo em torno de 70 trilhões de células. Para se ter ideia do que são 70 trilhões, é o número 70 acompanhado de mais 12 zeros. Aquelas duas células se tornaram 70 trilhões.

E essas novas células têm funções específicas. As células da pele têm uma função, as células do olho têm outra, o fígado tem outra, e até o esquecido-até-que-doa apêndice tem sua função. Nenhuma célula está ali sem ter o que fazer, apenas ocupando espaço, ou esperando a próxima série da Netflix sair. Está todo mundo ali, cumprindo sua função. 70 trilhões de células cumprindo a sua função.

Duas células, que viram 4, que viram 8, que viram 16, que viram 32, que, um dia, virarão 70 trilhões. E cada uma sabendo o que deve fazer, com instruções claríssimas. Toda essa beleza da criação de um único ser humano deveria nos deixar maravilhados. Deus, um dia, nos criou do pó da terra, planejou tudo, conhecia cada célula do nosso corpo. Ele conhece tudo em todos. Não é maravilhoso demais para a gente entender isso?

Quando olho para um bebê, não posso deixar de lembrar do meu Deus. Deus que criou tudo, que desenhou como as 2 células iriam se transformar em 70 milhões, passou pelo processo de nascer homem, menino, bebê. O Deus das Escrituras, o Verbo vivo, se fez carne e habitou entre nós.

Nascer do sol

Depois de ver um bebê, vamos para a natureza. Poucas coisas são tão belas quanto um nascer do sol – ok, seu cônjuge é a coisa mais linda pra você, mas não é disso que estamos falando agora. Vamos focar no nascer do sol.

O nascer do sol ocorre muito cedo e se você, assim como eu, não costuma acordar antes que o galo, há grandes chances de que você nem se lembre da última vez em que viu o sol nascendo. Tudo bem, acontece. Mas você deve se lembrar de algum dia em que viu o sol nascer – eu espero que sim, mas se não tiver visto, durma mais cedo hoje e vá ver o nascer do sol amanhã, risos.

Eu preciso que você use a sua imaginação nesse momento. Imagine que você está sentado num morro muito alto, como o Monte Roraima. São 5 horas da manhã e você está lá com seus amigos esperando o sol nascer. São 5:20 e nada de o sol nascer. Mais 15 minutos, e vocês e seus amigos começam a perceber que o céu parece ficar mais claro, cada vez mais claro, ainda mais claro. Agora são 5:35 e vocês já começam ver a ponta do sol no horizonte.

Às 5:50, você e seus amigos, eufóricos, veem o sol quase por completo. Às 6 horas da manhã, já não há uma única pessoa que não esteja fascinada com aquele brilho no céu. O que há pouco era escuridão, já não é mais. É luz. É luz sem fim. Luz tão forte que nada consegue pará-la. Agora, só resta a você e aos seus amigos pegar as coxinhas e a Coca-Cola e apreciar mais um pouco a criação.

Talvez você não tenha percebido isso, mas a luz invadindo a Terra e iluminando todos os lugares é muito parecida com a história de um homem, digamos, famoso. Nós o chamamos de Jesus.

A humanidade, um dia, decidiu que se viraria melhor sem Deus. Nesse momento, densas trevas nos invadiram, a ponto de nos tornarmos inimigos de Deus. Foi algo tão grave que o salmista disse que não há um justo, um justo sequer. Não há um ser humaninho que não tenha se rebelado contra Deus. Trevas. Todos estávamos em densas trevas. Mas não era pouca coisa. Não eram trevas como quando o seu quarto está escuro, que você ainda consegue enxergar algo. Não!

Eram trevas tão escuras que você poderia senti-las com as próprias mãos. Essas eram as trevas que nos afastavam de Deus.

Há, mais ou menos, dois mil anos atrás, nasceu um bebê. Como todo bebê, precisou de muitos cuidados na infância. Se fosse nos dias de hoje, ele usaria fraldas e precisaria de alguém para trocá-las. Talvez usasse chupeta. E talvez também tivesse um ursinho que usasse para abraçar ao dormir. O nome desse bebê, que, eventualmente, cresceu e se tornou um homem, é Jesus.

Esse homem nasceu e foi um evento cósmico, a ponto de estrelas se mexerem. Nós vemos o sol brilhar e ficamos extasiados. Jesus, o filho de Deus, brilhou infinitamente mais que o sol. Se o sol brilha, Cristo brilha muito mais. O nascer de Cristo foi o nosso nascer do sol. No momento em que estávamos vivendo em trevas palpáveis, Cristo nasceu, e, assim como o sol ilumina a Terra, Ele iluminou nossas vidas.

O que era trevas, já não é mais. É Luz. É tamanha luz que o apóstolo João diz que Cristo é a Luz do mundo. Cristo brilhou e nos iluminou. Nossas trevas foram dissipadas.

Eu poderia passar o dia todo falando do nascer do sol e de Cristo, mas precisamos seguir em frente. Há ainda muito mais coisa para se dizer sobre o nascer do sol, mas eu vou deixar que você exercite a criatividade e imagine a beleza que é tudo isso.

Visita a um cemitério

Meus amigos dizem que eu sou estranho, mas quando tenho a oportunidade de viajar e conhecer um lugar novo, eu geralmente gosto de dar uma passada por um cemitério. Não é isso que você está pensando. Calma, não estranhe, eu vou tentar explicar tudo.

A morte não é um assunto que está nas rodas de conversa, muito menos quando não é com a gente, com alguém próximo. Ninguém convida outra pessoa para um churrasco para falar sobre morte – se alguém faz isso, saiba que não é comum.

É só mais um daqueles assuntos que, se possível, a gente prefere nem tocar – só toca quando e se for preciso. Mas o fato é que ao homem foi determinado morrer uma só vez e, após isso, o juízo (Hebreus 9:27), e se nos foi determinado morrer uma só vez, também nos foi determinado viver uma única vez.

Quando visitamos um cemitério, para enterrar um ente querido, um amigo, um conhecido, temos a oportunidade de ver o fim de todos os homens (Eclesiastes 7:2). Mas seria muito pouco se, com a morte, Deus quisesse apenas nos mostrar que ali é o fim da vida aqui para o começo da vida lá. Pelo menos eu acho muito pouco. Deve haver muito mais lições para tirar de uma visita a um cemitério.

Quando preciso ir a um cemitério, ou quando viajo e tenho a oportunidade de conhecer um, eu penso em quantas pessoas ali morreram sem Cristo. Quantas delas batalharam a vida inteira e talvez tenham vivido só em função do trabalho, se esquecido da família, feriados, férias. Talvez tenham se esquecido de Cristo. Talvez sequer tenham tido tempo de ir à igreja. “Ei, vamos ao culto no domingo?” “Não posso, estou muito ocupado”. Fato é que, ocupadas ou não, a morte chegou para essas pessoas; e quando chamam a sua senha, meu camarada, não tem o que fazer.

Quando tive a oportunidade de conhecer o Bunhill Field, em Londres, foi uma experiência marcante demais. Eu estava sozinho, sentado na frente do túmulo de John Bunyan – sim, ele mesmo, o autor de O Peregrino. Naquele momento, eu só pude agradecer a Deus pela vida dele e por saber que ali estava o corpo de um irmão em Cristo. Da mesma forma, ao olhar pro lado, soube que Susanna Wesley, a mãe de John Wesley e Charles Wesley, os pais do Metodismo, também estava lá. Ou seja, outra irmã em Cristo. Naquele momento fui lembrado de que, para os cristão, nem tudo termina aqui.

Perceba, são dois sentimentos, a princípio, contraditórios. Vou ao cemitério e fico triste, mas também fico alegre. Como isso é possível?

Só é possível por causa de Cristo. Nos entristecemos porque sabemos que nem todos têm dado a devida atenção às coisas de Deus. Talvez nós mesmos não tenhamos sido devotos de Deus como deveríamos. É nessa hora que podemos analisar a nossa vida. Será que tenho, de fato, vivido como meu Deus deixou claro nas Escrituras? Quando chamarem a minha senha, como é que vou me apresentar diante de Deus? Será que vou me apresentar como um crente em Jesus Cristo mesmo, podendo gozar da alegria com os santos, ou será que terei jogado fora a minha vida, com os meus próprios prazeres, e a única coisa que me restará será ser um inimigo eterno de Deus?

Contemplar todos esses eventos nos faz perceber que há intenção da parte de Deus em notarmos aquilo que é belo aos olhos de Deus, Ele é o criador e em tudo há da Sua beleza. Como cristãos nós também vemos o Filho, o Verbo que é criador junto ao Pai. Eles são um e ao ver o Filho, somos transformados por enxergar a Deus, assim como Ele mesmo falou com seu povo em Isaías 45.22 “Olhai para mim (olhamos para Cristo e o Evangelho) e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro.