Introdução

Um dos temas preciosos que o púlpito evangélico brasileiro há muito se esqueceu de pregar chama-se perdão. Há, por parte de denominados cristãos, uma concepção errônea a respeito de seu significado que precisa, urgentemente, ser corrigido e aplicado às vidas dos crentes em Cristo.

Gostaria de esclarecer que esse texto usa como base a construção de Jay Adams, em seu livro De Perdoado a Perdoador – livro esse que é recheado de trechos bíblicos para sustentar sua posição. Jay Adams é conhecido mundialmente por suas dezenas de livros sobre aconselhamento e por seus longos anos de pastoreio.

Em seu livro, Jay Adams explica sobre perdão à luz do perdão divino que nos foi concedido. Ele norteia o perdão que exercemos entre irmãos através do perdão que recebemos de Deus através da morte de Cristo na cruz.

Da onisciência divina

O que acontece conosco quando Deus afirma que está nos perdoando de nossos pecados, de nossas vidas imundas, de tudo aquilo que nos separa dele? Está ele apenas dando um banho pra tirar a sujeira mais aparente? Ou ele está apenas dando uma nova veste para nós? O que é que Deus, de fato, está fazendo quando ele nos perdoa?

Por favor, vamos considerar alguns atributos de Deus, como onipresença, onipotência e onisciência. Se Deus sabe de tudo, como é que ele nos perdoa e esquece dos nossos pecados? Como diz o Pastor Rodolfo, “é uma impossibilidade por definição”, pois Deus não se esquece dos nossos pecados. Mas calma, vamos explicar o que isso quer dizer!

Deus nunca prometeu que se esqueceria dos nossos pecados. Antes, ele prometeu que não se lembraria dos nossos pecados, das nossas iniquidades (Isaías 43.25; Hebreus 8.12).

No livro do Jay Adams, o autor afirma que, quando Deus nos perdoa de nossos pecados, ele está dizendo que não trará nossos pecados à roda, à baila, à discussão, quando estivermos o encarando (Miquéias 7:18). Ele, ativamente, não se lembrará mais dos nossos pecados. Perceba que eu disse que ele não se lembrará mais, e não disse que ele se esquecerá. Ora, não significam as duas coisas a mesma coisa? Na verdade, não.

Diferença entre se esquecer e não se lembrar

Biblicamente, perdoar não é se esquecer, mas é não se lembrar. Se não nos aprofundarmos na compreensão da diferença entre se esquecer e não se lembrar, cairemos no erro de achar que ambas significam a mesma coisa. Não! Esquecer-se demonstra passividade, um ato sem um esforço exercido. Para exemplificar, nós não nos esforçamos para esquecer a chave do carro, não nos esforçamos para nos esquecermos de pagar uma conta. Tudo isso acontece porque nossa mente, simplesmente, esquece.

Todavia, não se lembrar exige que o agente esteja consciente do que está fazendo, é um ato que exige uma compreensão profunda do que se está realizando. Não se lembrar, como dito acima, é não trazer um assunto à baila, nunca mais, porque você disse que nunca mais se lembraria daquela atitude.

Quando dizemos que estamos perdoando um irmão ou irmã, estamos afirmando que não nos lembraremos mais daquela situação que nos feriu, firmando assim uma promessa entre os envolvidos. Jay Adams diz que “O perdão não é um fim em si mesmo; é um meio para um fim – um novo e melhor relacionamento com aqueles de quem nos tornamos distantes por causa de algum desentendimento” (pág. 89).

Perdão – a definição bíblica para o assunto

Para uma melhor compreensão do conceito bíblico de perdão, acredito que seja mais interessante dividir em duas partes: 1) o que não é perdão; 2) o que é perdão. Mostrar ao leitor a compreensão equivocada de perdão ajudará a elucidar o que, de fato, é o perdão bíblico.

O que não é perdão?

Desculpas. Desculpa não é um termo bíblico. Jay Adams diz ainda que desculpa é um termo mundano introduzido na igreja de Cristo para destruir o conceito de perdão que os irmãos deveriam ter em mente. A desculpa não exige nada da parte do ofendido, fazendo com que ele também não reaja ao ato ofensivo. O perdão é uma via de mão dupla, pois exige do ofensor a confissão e o arrependimento, e do ofendido, o perdão – trabalharemos então o conceito de perdão a seguir.

Perdão também não é resultado de um sentimento – não devemos sentir que estamos perdoando ou sentir o perdão. Isso vem de uma cultura sentimentalista que temos vivido. Nosso chamado é para uma promessa de perdão, onde, sem hipocrisia, dizemos a nós mesmos que perdoamos o nosso ofensor. Não devemos perdoar baseado no que sentimos, mas devemos perdoar baseado naquilo que Deus nos ordena.

O que é perdão?

Já que dissemos que desculpas não são bíblicas, o que devo fazer para perdoar? Como podemos definir perdão de uma forma bíblica? Vamos, portanto, partir do início.

O perdão é condicional

É, meus irmãos, o perdão é condicional. Assim como o nosso perdão diante de Deus está condicionado ao arrependimento do nosso coração, do abandono das coisas que anteriormente fazíamos, de como vivíamos distantes de Deus e debaixo de sua ira, o perdão entre irmãos deve seguir a mesma linha. O perdão prometido pelo ofendido está condicionado ao arrependimento do ofensor.

Quando o ofensor está realmente arrependido, o perdão é a promessa de não trazer o pecado do ofensor à discussão, nunca mais. Dá-se ênfase ao arrependimento porque, como perdoar é uma resposta ao arrependimento, se ele não existir, uma promessa ao vento não faz sentido.

Pelo exemplo divino, ele deseja que nós nos perdoemos, que prometamos uns aos outros que, quando alguém, arrependido, nos pedir perdão, decidiremos e prometeremos perdoar e não trazer aquele assunto à roda novamente, como podemos ver como Deus faz em Hebreus 8:12: “Porque serei misericordioso para com suas iniquidades, E de seus pecados e de suas prevaricações não me lembrarei mais“.

Se pudermos cobrir o pecado com amor, assim façamos

Um dos pontos levantados pelo autor, Jay Adams, é que, às vezes, a ofensa do nosso irmão pode ser relevada, entendida e coberta com amor. Podemos ver esse conselho em 1 Pedro 4:8: “Mas, sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros; porque o amor cobrirá a multidão de pecados“. Ao invés de acusar o teu irmão, o primeiro passo pode ser, se você conseguir, cobrir a ofensa do teu irmão com amor.

Repreende o teu irmão!

Contudo, nem sempre a ofensa de um irmão é tão simples que possa ser apenas considerada de pouca importância ou que seja possível apenas cobrir o pecado pelo amor. Às vezes, o seu irmão necessitará de uma repreensão e você deverá estar pronto para fazer isso.

Se não é possível cobrir com amor, devemos seguir o caminho apresentado em Mateus 18:15-16: “15 Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão; 16 Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada.

O primeiro momento de repreensão se dá baseado no versículo 15. É dever do cristão, quando seu irmão pecar contra ele, que ele repreenda o irmão a sós. A sós para evitar qualquer constrangimento ao irmão, porque cremos que Deus poderá trazer o arrependimento àquele irmão naquele momento. O próprio Jesus nos disse que se o irmão te ouvir, ganhaste o teu irmão. Isso quer dizer que, se ele te escutou e se arrependeu, um melhor relacionamento será criado a partir de agora.

Contudo, sabemos que nem tudo são flores. Pode ser que o teu irmão não te escute e, então, você deverá prosseguir para o versículo 16. Agora, na presença de duas ou três testemunhas, você deve apresentar a ofensa e os seus argumentos, na esperança de que o irmão que te ofendeu ou pecou contra ti, possa ser levado ao arrependimento. Caso haja arrependimento, ganhaste o teu irmão.

As testemunhas são importantes nesse segundo passo porque elas serão utilizadas no caso de não haver arrependimento da parte do irmão. Elas serão responsáveis por validarem o seu testemunho diante da assembleia!

O ideal era que os irmãos “se encontrassem no meio do caminho”, pois o irmão que ofendeu iria pedir perdão, enquanto o irmão ofendido iria para repreender, em amor, o irmão que o ofendeu. No meio do caminho o perdão tomaria forma e um novo, e melhor relacionamento seria criado entre os irmãos.

Leve à assembleia

Infelizmente, nem todos os indivíduos serão capazes de se arrepender. É por isso que o próprio Jesus já deixou instruções claras de como devemos proceder em Mateus 18:17: “E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano.

Como nossa sociedade vive momentos de impiedade e distâncias colossais da sã doutrina, pode parecer duro demais o que Cristo está falando às pessoas. Mas tudo o que ele diz, é para que a igreja se mantenha pura e santa até o dia de sua volta.

O primeiro passo dessa terceira parte é levar o problema à assembleia, à igreja. Nesse momento, espera-se que haja arrependimento da parte do irmão ofensor. Ali estarão todos os irmãos dispostos a aceitar seu arrependimento para que um novo e melhor relacionamento seja estabelecido.

É na assembleia que o irmão ofendido e as testemunhas levantarão e apresentarão o problema aos demais irmãos. Espera-se que o constrangimento da assembleia também leve o ofensor a refletir sobre seu pecado. Se ele se arrepender, reconhecer seu erro, ganhamos um irmão!

No entanto, se após discutir sobre o pecado a sós, na presença de testemunhas e também na assembleia, e ainda assim o irmão não se arrepender de seu pecado, partiremos para o passo mais extremo. O próprio Cristo diz considera-o como um gentio e publicano. Esse pecador que, depois de todos os passos, não se arrependeu, deve ser excluído da igreja de Cristo. Ele passa a ser considerado gentio e publicano, um ímpio.

Seguir esses passos pode não ser fácil, mas são instruções claras e diretas de como Cristo quer que a igreja se comporte diante do pecado e ofensa entre irmãos. Se amamos a Cristo, devemos tratar a pureza e santidade da igreja de Cristo com muito mais estima do que fazemos hoje!

Perdoar não é uma escolha.

Como diz o subtítulo acima, perdoar não é uma escolha. Se um irmão se arrepende do seu pecado, o cristão tem o dever de o perdoar. Você pode se perguntar também o porquê de ser necessário que haja perdão entre irmãos. Ora, a parábola do servo perdoado que não perdoa, de Mateus 18:21-35, nos humilha e ressalta 3 pontos básicos pelos quais devemos perdoar:

O primeiro ponto a se notar é que há uma irracionalidade da nossa atitude quando não desejamos perdoar. Fomos grandemente perdoados, mas não perdoamos – nós, sequer, desejamos perdoar. Quando isso acontece, somos comparados ao fariseu que amou pouco e perdoou pouco (Lucas 7.36-47).

O segundo ponto que devemos considerar é a maldade de tal atitude. Quando não perdoamos, fica evidente a nossa ignorância e ingratidão a Deus, pois deixamos de considerar que fomos extremamente perdoados por Deus.

Por último, devemos considerar também que existe um perigo de um tal espírito não perdoador: Deus chamará seus servos para prestar conta do que ele nos deu. Quando não perdoamos o arrependido, é como se negássemos o sacrifício de Cristo na cruz. Hebreus 10:20-31 diz: “De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça? Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo. Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo.” Que nós nunca neguemos perdão ao arrependido; e que Deus nos guarde de não sermos gratos pelo perdão que Ele nos deu!