"Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos, e ele passou a ensiná-los, dizendo..." (Mateus 5:1-2)
Querodos irmãos e irmãs, a Palavra de Deus é um tesouro inesgotável, e o Sermão da Montanha, proferido por nosso Senhor Jesus Cristo, é um dos seus pontos mais altos. No entanto, sua profundidade muitas vezes nos escapa. Hoje, convido você a mergulhar na essência das Bem-Aventuranças, desvendando o verdadeiro significado de ser "bem-aventurado" na perspectiva divina.
Jesus, como o Mestre por excelência, não apenas pregava; Ele ensinava. E o ensino, irmãos, muitas vezes exige que desconstruamos conceitos pré-estabelecidos sobre Deus, fé e religião. É como Paulo nos lembra em 1 Coríntios 3: o fundamento é Cristo. Sobre Ele, edificamos nossa vida espiritual, e tudo o que construirmos será provado pelo fogo santo do Senhor.
As Bem-Aaventuranças, que iniciam o capítulo 5 de Mateus, não são apenas uma lista de virtudes morais. Elas são a introdução pedagógica para a vida no Reino, um convite a uma nova forma de ver e viver. Por séculos, esse texto tão conhecido tem sido, paradoxalmente, mal compreendido. Muitos de nós, ao ouvir "bem-aventurado", logo associamos à "felicidade". Mas essa interpretação, embora não totalmente errada, é incompleta e não alcança a profundidade do que Jesus realmente queria transmitir. A felicidade, afinal, também pode ser encontrada no mundo, até mesmo pelos que não conhecem a Deus.
A questão central é: onde o texto bíblico afirma que "bem-aventurado" é apenas uma felicidade espiritual? É por isso que precisamos ir mais fundo, assim como Jesus fez ao ensinar Seus discípulos.
Para os judeus da época de Jesus, a expressão "bem-aventurado" carregava um peso e um significado muito mais rico do que simplesmente "feliz". Essa compreensão está sempre sustentada por dois pilares teológicos fundamentais:
Ser bem-aventurado, em primeiro lugar, é ter recebido um privilégio sobrenatural e soberano da parte de Deus. Não é algo que conquistamos por mérito, mas um benefício concedido pela graça divina. É uma questão da soberania de Deus.
Pense em Maria, ao ser saudada por Isabel: "Bem-aventurada és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre" (Lucas 1:42). A bem-aventurança de Maria não veio de suas obras, mas de um benefício divino incomparável: ser a mãe do Salvador.
O Salmo 32 nos revela ainda mais sobre esse pilar. Davi, em um salmo didático, declara: "Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor Jeová não atribuiu iniquidade, e em cujo espírito não há dolo" (Salmos 32:1-2). Aqui, a verdadeira felicidade, a verdadeira bem-aventurança, é o perdão dos pecados, o ato soberano de Deus em nos justificar. Como Paulo reforça em Romanos 4, citando Davi, a justiça é atribuída independentemente das obras. Abraão, por sua fé, foi justificado mesmo antes de ser circuncidado. Não é pelo que fazemos, mas pela fé em Cristo, que recebemos esse privilégio inestimável.
É a graça de Deus que nos alcança, nos justifica e nos chama de bem-aventurados. É ter sido salvo pelo Cristo da cruz, um ato grandioso que homem natural algum poderia realizar.
E o Salmo 144 reforça essa ideia: "Bem-aventurado o povo a quem assim sucede; sim, bem-aventurado é o povo cujo Deus é o Senhor" (Salmos 144:15). Quando Deus é nosso Senhor, quando Ele está em nosso meio, nos provendo e nos abençoando, essa é a bem-aventurança que decorre de Sua soberania.
Uma vez que somos agraciados e beneficiados por Deus, o segundo pilar entra em cena: como fazemos bom uso dessa graça divina? Receber o privilégio é um ato da soberania de Deus; viver à altura desse privilégio é nossa resposta de fé e obediência.
O Salmo 119, o mais longo das Escrituras, nos aponta o caminho: "Bem-aventurados os irrepreensíveis no seu caminho, que andam na lei do Senhor. Bem-aventurados os que guardam as suas prescrições e o buscam de todo o coração" (Salmos 119:1-2).
Ser bem-aventurado, a partir do entendimento do primeiro pilar, nos leva à gratidão que nos impulsiona a recorrer às Escrituras em todo tempo. É na Palavra que encontramos o Deus que nos agraciou, o Deus maravilhoso que nos perdoou e justificou, mesmo sem merecermos. Andar na lei do Senhor, guardar Suas prescrições e buscá-Lo de todo o coração é o bom uso da graça de Deus. Se falhamos, a misericórdia nos convida a correr de volta para Ele, pois somos bem-aventurados pela graça de Jesus.
O Salmo 128 nos oferece uma aplicação prática desse bom uso: "Bem-aventurado aquele que teme ao Senhor e anda nos seus caminhos" (Salmos 128:1). A recompensa desse temor e obediência se manifesta em todas as áreas da vida: no trabalho ("Do trabalho de tuas mãos comerás; feliz serás e tudo te irá bem"), na família ("Tua esposa, no interior da tua casa, será como a videira frutífera; teus filhos como rebentos da oliveira, à roda da tua mesa"), e na paz que é derramada sobre nós.
Se Israel tivesse feito bom uso da graça de Deus, a promessa de "Paz sobre Israel" (Salmos 128:6) teria se concretizado. A antiga aliança, mostra as consequências da desobediência. Mas nós, irmãos, vivemos sob uma nova e eterna aliança em Cristo Jesus. Cuidado para que a graça de Deus não seja em vão em sua vida, e que a paz do Senhor não falte por não darmos ouvidos à Sua Palavra.
Com esses dois pilares firmes em nossa compreensão, podemos agora nos aproximar de Mateus 5:3: "Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus."
É crucial entender que a palavra traduzida como "humildes" em muitas Bíblias é, no original grego, "pitaquós", que significa "pobre", no sentido de miséria, mendicância total. Não é o oposto de riqueza material, mas sim o antônimo de arrogância, orgulho, valores próprios e autossuficiência.
Ser "pobre de espírito" é reconhecer a nossa total e absoluta dependência de Deus. É o oposto de:
Quando Jesus fala de "pobres de espírito", Ele está quebrando nossa natureza humana pecaminosa. Ele está dizendo que somos, por nós mesmos, cegos, nus, pecadores, miseráveis – tudo o que não presta diante de Deus. E a bem-aventurança não está em ser isso, mas em enxergar que somos isso. É nesse momento que o Reino de Deus se abre para nós!
As Bem-Aventuranças, como Charles Spurgeon e João Calvino bem defenderam, são como uma escada pedagógica. Cada degrau nos prepara para o próximo. Ninguém começa sendo "limpo de coração para ver a Deus" se antes não reconheceu sua própria miséria espiritual.
Entender "bem-aventurado" nessa profundidade transforma nossa cosmovisão. Não é uma lista moral a ser cumprida, mas uma listagem teológica e espiritual. Se não estivermos baseados nessas duas colunas – o privilégio soberano de Deus e o nosso bom uso da graça – não podemos nos considerar verdadeiramente bem-aventurados.
Que a partir de hoje, ao lermos as Bem-Aventuranças, possamos ter clareza de que elas não se referem à salvação por obras ou por uma humildade autônoma, mas por um reconhecimento genuíno de nossa pobreza espiritual que nos leva à justificação em Cristo Jesus.
Ser pobre de espírito é apenas o começo da nossa jornada. Que o Espírito Santo nos capacite a caminhar cada vez mais nesse entendimento profundo da Palavra de Deus.