Bem-aventurados os que choram: o consolo que só Deus pode dar

Chegamos então ao segundo degrau do Sermão da Montanha. Jesus diz: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” Poderíamos traduzir: “Felizes são os desesperados, os que estão arrasados.” Isso é totalmente contra o hedonismo do nosso tempo, que prega prazer a qualquer custo.

Mas atenção: Jesus não está ensinando uma espiritualidade triste por si mesma. Ele fala do caráter do cristão, não de um estado emocional constante. É uma tristeza específica, gerada pela visão de quem somos diante dEle.

Lembram do primeiro degrau? Os “pobres de espírito”? Lá nos esvaziamos de orgulho, valores pessoais, autossuficiência, para sermos cheios de Cristo. Mas isso não termina aí. Ao entrar no Reino, descobrimos que ele tem um Rei santo, glorioso, assentado em alto e sublime trono. E a luz da Sua santidade revela quem realmente somos.

Então choramos. Não um choro comum, mas o que o texto chama de “pantōntes” — o máximo de pranto humano, como de quem perde alguém muito amado, desmaia, grita, cai ao chão sem força. É o choro de quem percebe o abismo entre a própria indignidade e a glória do Rei.

O que nos faz chorar assim?

Esse pranto vem acompanhado de três marcas:

1. Desespero da perda

Perdemos a nós mesmos. Nosso velho “eu” que vivia pela própria cosmovisão é desfeito. Isso dói profundamente. Além disso, diante de Cristo, sentimos algo ainda mais terrível: não há como tê-Lo a não ser que Ele nos queira. Esse é o maior desespero. Como Esaú, que chorou por ter perdido sua primogenitura, mas não se arrependeu do pecado.

2. Dor da ausência de esperança própria

É como o luto. Não há nada que possamos fazer por nós mesmos para ter de volta aquilo que perdemos. Estamos diante de Jesus, sabendo que não temos como nos saciar da beleza do Salvador — a não ser que Ele tenha misericórdia.

3. Tristeza pela nossa indignidade e pecado

Percebemos o quanto somos indignos de estar diante dEle. Que nossa vida foi uma afronta à Trindade. Que muitas vezes só orávamos por obrigação, jejuávamos apenas para exames médicos, e o Reino nunca foi a prioridade das nossas agendas.

Não é um choro qualquer, é o pranto que Deus recolhe

Jesus não está falando de tristezas comuns da vida. Não é o choro egoísta de Acabe porque não conseguiu o campo de Nabote, nem o arrependimento moral de Judas ou o desespero de Caim pelas consequências. É o choro de quem viu quem Deus é, quem nós somos, e o que o pecado fez.

E esse choro, sim, Deus recolhe. Davi entendeu isso e cantou no Salmo 56:8:

“Recolheste as minhas lágrimas no teu odre; não estão elas escritas no teu livro?”

Cada lágrima do crente quebrantado, Deus guarda. Cada lágrima tem um significado no livro dEle, e Ele promete consolar.

A promessa de Jesus é clara: “porque serão consolados.” O que é esse consolo? Não é um alívio psicológico, não é terapia, não é moralidade. É um milagre. É ter um lugar para chorar, encostar a cabeça no ombro do Pai, e ouvir uma voz suave e poderosa que transforma desespero em paz.

Isaías 61 descreve isso:

“... a pôr sobre os que em Sião estão de luto uma coroa em vez de cinzas,
óleo de alegria em vez de pranto,
vestes de louvor em vez de espírito angustiado...”

Isso só Deus faz. Ele coloca a mão na nossa alma e nos transforma, ungindo-nos com alegria no meio do pranto, para sermos chamados carvalhos de justiça, plantados pelo Senhor para Sua glória.

Que você tenha esse choro e esse consolo

Que o Senhor conceda a você essa experiência viva. Que você tenha esse choro desesperado ao ver quem é diante da santidade de Deus, chore pela sua indignidade e pecado, e então experimente o consolo do Pai.

Seremos consolados. E um dia, estaremos no céu, não apenas despidos de nós mesmos, mas andando no Reino de Jesus com uma alegria sobrenatural que homem nenhum pode produzir. Que Deus nos abençoe em Cristo Jesus.

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