“Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.” (Mateus 5:5)
Amados irmãos, hoje, continuando nossa caminhada pelo Sermão do Monte, chegamos ao terceiro degrau dessa escada espiritual que Cristo nos apresenta nas Bem-Aventuranças. E confesso: este é um dos degraus mais mal compreendidos pela igreja ao longo dos séculos — e talvez o mais distorcido pela nossa cosmovisão ocidental e humanista. Mas o que, de fato, significa ser manso? E que terra é essa que herdaremos?
Primeiro, vamos começar pelo que não é mansidão, porque por aí já se cometem os maiores equívocos.
Ser manso não é ser tímido, calado, introspectivo, aquele que nunca reage. Não é sinônimo de uma pessoa “boazinha”, passiva ou até covarde. Muitos, por não compreenderem isso, tentam mudar sua personalidade achando que precisam ficar quietos o tempo todo para serem mansos. Outros, pior ainda, abusam de irmãos naturalmente mais calmos, manipulando e esmagando pessoas doces como se fossem bobas, quando, na verdade, isso não tem nada a ver com o texto.
A mansidão também não é ausência de firmeza. Basta lembrar dos mártires da igreja — homens e mulheres que foram chicoteados, aprisionados, queimados vivos, mas permaneceram inabaláveis em fé. Eram mansos, sim, mas não frouxos; morreram em defesa do Evangelho. E o maior exemplo é o próprio Cristo, que foi ao templo e virou as mesas dos cambistas. Mesmo assim, Ele disse: “Aprendam de mim, que sou manso e humilde de coração.”
A palavra usada por Jesus no original grego é praus. É uma palavra forte, até agressiva em seu contexto linguístico, carregada de autoridade. Na cultura grega, praus descrevia principalmente dois tipos de animais:
Quando Jesus diz “bem-aventurados os mansos”, Ele está falando exatamente disso: poder sob controle, vida submissa, natureza domesticada pela mão do Senhor.
Ser manso é ter sido domesticado pelo Evangelho. É viver debaixo do domínio do Espírito, permitindo que o velho eu — que era como um cavalo selvagem correndo conforme suas vontades — seja transformado num servo útil para o Reino.
Quer entender biblicamente o que é ser manso? Olhe para Moisés. A Palavra diz em Números 12:3: “Era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra.”
Mas perceba o contexto: Miriam e Arão estavam questionando por que Deus falava só com Moisés. O Senhor se irou, castigou Miriam com lepra e defendeu Seu servo. O texto não está exaltando um “Moisés fofo e calado”. Está dizendo que, no meio de toda rebeldia, ele era o homem mais submisso à vontade de Deus, domesticado pela Lei do Senhor.
Essa mansidão não significava ausência de coragem. Quando Deus ordenou, Moisés foi quem mandou o exército executar o juízo sobre os midianitas. Ele não hesitou porque a mansidão não é uma fraqueza externa; é um coração que obedece a Deus acima das próprias percepções morais ou culturais.
Ser manso é:
E o que significa “herdarão a terra”? Não é uma escritura registrada em cartório garantindo milhares de hectares. É muito mais.
Significa que, de maneira misteriosa e milagrosa, Deus fará os mansos viverem com plenitude nesta terra, usufruindo do que é lícito, desfrutando do que Ele criou — mesmo que não sejam donos de nada. É ter uma vida abençoada, segura, sustentada pela mão dEle.
E aponta também para o futuro: a nova terra, onde reinaremos com Cristo para sempre, completamente libertos do velho homem, habitando num lugar de perfeita justiça e paz.
Amados, ser manso não é ter um temperamento calmo. É ser dominado pelo Evangelho, governado pela nova aliança, vivendo debaixo do jugo suave de Cristo. É ter a natureza antiga subjugada, deixando de ser um furacão destruidor para se tornar uma brisa suave que espalha o bom perfume de Jesus.
Esse é o chamado do nosso Senhor. Que Ele nos dê corações mansos, domesticados pela Sua graça, prontos para obedecer mesmo quando tudo em nós queira o contrário. E assim, como Ele prometeu, herdaremos a terra.