O Combate Cristão

“Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado e de que fizeste a boa confissão perante muitas testemunhas.” - 1 Timóteo 6:12


Nas guerras deste mundo, as consequências sofridas pelas nações, muitas vezes, são transitórias e passíveis de reparo. No caso do conflito espiritual, no entanto, as consequências possuem uma natureza completamente diferente. Nesse embate, as consequências pós-luta são irreversíveis e eternas. Não há como alterar o resultado na eternidade.

Foi sobre esse conflito que Paulo falou a Timóteo, quando escreveu estas palavras impactantes: “Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna”. É a respeito desse conflito que pretendo abordar. Inicio dizendo que esse assunto está estreitamente ligado aos temas da santificação e da santidade. Quem desejar compreender a natureza da verdadeira santidade precisará reconhecer que o crente é “um guerreiro”. Para ser verdadeiramente santo, precisará também lutar e labutar.

Dito isso quero destacar algumas lições desse versículo bíblico:


Primeira Lição: O Cristianismo Genuíno é Uma Luta Contínua!

A primeira e fundamental verdade sobre esta questão é: o cristianismo genuíno, autêntico, é um combate.

"Preste atenção às palavras “genuíno” e “autêntico”! Existe muita religiosidade por aí que, embora se apresente como cristã, não reflete a verdadeira, a genuína, a autêntica fé. Pode até ser aceita por muitos e tranquilizar consciências adormecidas, mas carece de legitimidade. Não se trata do cristianismo original, aquele que marcou os primórdios da fé.

Milhares de pessoas frequentam igrejas e templos todo domingo, autodenominando-se cristãs. Seus nomes estão nos registros batismais, são consideradas cristãs em vida, casam-se em cerimônias cristãs e, ao morrer, desejam ser sepultadas como tal. Contudo, em sua prática religiosa, o “combate” é uma realidade ausente! Elas ignoram por completo a luta espiritual: o esforço, o conflito, a abnegação, a vigilância e a guerra contra o mal. Uma fé assim pode até agradar as pessoas – e quem a contesta talvez seja visto como rude, “quadrado” ou insensível –, mas, sem dúvida, não é o cristianismo da Bíblia. Não é a religião estabelecida por Jesus e pregada por seus apóstolos; tampouco é a fé que produz a verdadeira santidade. O cristianismo autêntico é, sim, um “combate”.

O verdadeiro crente é convocado para ser um soldado e deve agir como tal, do início ao fim de sua jornada de fé. Não foi chamado para uma existência de paz religiosa, de indolência ou de uma falsa segurança pessoal. Jamais deveria imaginar, nem por um instante, que pode relaxar ou adormecer em sua caminhada rumo à pátria celestial, como quem faz um passeio despreocupado. Se ele molda seu cristianismo pelos padrões deste mundo, pode até se satisfazer com tais ideias. Contudo, não encontrará respaldo para elas nas páginas da Palavra de Deus. Se a Bíblia é seu guia de fé e conduta, descobrirá que seu percurso é inequivocamente traçado: a ele compete “combater”."

E contra quem o soldado cristão deve lutar? Não contra outros cristãos, obviamente. É lamentável, em todos os sentidos, a ideia de que a fé cristã se resuma a uma eterna controvérsia! Quem se satisfaz apenas em conflitos internos – entre igrejas, congregações, denominações ou membros – ainda não compreendeu a verdadeira essência da fé. Certamente, em algumas ocasiões, é inevitável recorrer a um confronto para esclarecer circunstâncias ou pareceres. No entanto, em geral, o pecado raramente é tão visível quanto quando os crentes desperdiçam suas energias em disputas internas, perdendo tempo com desavenças banais por gostos pessoais que não foram supridos.

Não, de forma alguma! A principal batalha do crente é contra a carne, o mundo, e o diabo. Estes são os adversários perpétuos do cristão. São os três arquinimigos contra os quais devemos travar uma guerra constante. Se o crente não vencer esses três inimigos, todas as outras vitórias que alcançar serão vazias e sem valor. Se ele possuísse uma natureza angelical e não fosse uma criatura caída, esse conflito não seria tão crucial. No entanto, diante de um coração corrompido, de um diabo astuto e de um mundo que engana, o crente precisa “combater” ou estará perdido.

O crente também deve combater a carne (nossa natureza pecaminosa e terrível, nossos desejos e posições que afrontam a Palavra de Deus e irmãos amados). Mesmo após a conversão, o crente carrega consigo uma natureza propensa ao mal e um coração frágil, tão inconstante quanto a água. Este coração jamais estará livre de imperfeições neste mundo; é uma vã ilusão esperar o contrário. Para evitar que nosso coração se desvie, Jesus ordenou: “vigiai e orai”. O espírito pode estar disposto, mas a carne é fraca. É essencial um combate diário e uma luta constante em oração. “Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado.” “Mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado, que está nos meus membros.” “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” “E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências.” “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena” (Mc 14.38; 1 Co 9.27; Rm 7.23,24; Gl 5.24 e Cl 3.5).

O crente deve combater o mundo. A influência sutil desse poderoso inimigo exige nossa resistência diária, pois, sem uma batalha cotidiana, ele jamais será superado. O apego aos bens materiais, o medo da crítica ou da pressão social, o desejo oculto de aceitação, a vontade de se conformar aos padrões mundanos para não ser rotulado como extremista – todos esses são adversários espirituais que incessantemente assediam o crente em sua caminhada celestial e precisam ser vencidos. “Não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” “Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele.” “O mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo.” “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo”. “Não vos conformeis com este século” (Tg 4.4; 1 Jo 2.15; Gl 6.14; 1 Jo 5.4; Rm 12.2)."

O crente também precisa combater o diabo. Esse antigo adversário da humanidade não está morto. Desde a queda de Adão e Eva, ele tem percorrido a terra e vigiado sem cessar, buscando seu principal objetivo: a ruína da alma humana. Nunca dormindo ou cochilando, ele está sempre à espreita, "como leão que ruge procurando alguém para devorar". Sendo um inimigo invisível, ele está constantemente ao nosso lado, cercando nosso caminho e nosso repouso, observando cada um de nossos passos. Como um "homicida" e "mentiroso" desde o princípio, ele trabalha incansavelmente, dia e noite, para nos arrastar ao inferno. Às vezes, tenta nos induzir à superstição ou nos incita à infidelidade; outras vezes, com diferentes táticas, ele conduz uma campanha destruidora contra nossa alma. "Eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo!" Esse poderosíssimo adversário deve ser combatido diariamente, se quisermos ser salvos. Contudo, para vencer esse adversário implacável, não basta apenas vigilância e oração; é preciso um combate direto, revestindo-se de toda a armadura de Deus. Esse inimigo forte e armado nunca será afastado de nosso coração sem uma batalha contínua. (Ver Jó 1.7; 1 Pe 5.8; Jo 8.44; Lc 22.31; Ef 6.11.).

Alguns talvez considerem essas declarações exageradas. Talvez você imagine que estou indo longe demais, usando descrições muito intensas. Pode ser que, secretamente, você esteja pensando que as pessoas deste mundo, com certeza, chegarão ao céu sem toda essa dificuldade e essa luta. “Ouça-me” por alguns instantes, e eu lhe mostrarei que tenho algo vindo do Senhor em Sua Palavra a lhe dizer: Em tempo de guerra, o pior equívoco consiste em subestimar o inimigo e tentar fazer uma guerra pequena. Há irmãos que estão tão frios em sua caminhada cristã que nada mais os agrada na fé, na igreja, no Reino e acham que viver suas vidas de forma monástica (separado de todos, longe de todos e sem comunhão) lhe permite ainda se autodenominar cristão. Em outros casos, muitos que não se esforçam mais para serem santos.

O que dizem as Escrituras? "Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado." "Participa dos meus sofrimentos, como bom soldado de Cristo Jesus." "Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis." "Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão." "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará." "Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada." "Agora, porém, quem tem bolsa, tome-a, como também o alforje; e o que não tem espada, venda a sua capa e compre uma." "Sede vigilantes, permanecei firmes na fé, portai-vos varonilmente, fortalecei-vos." "Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo, segundo as profecias de que antecipadamente foste objeto: Combate, firmado nelas, o bom combate, mantendo fé e boa consciência" (1 Tm 6.12; 2 Tm 2.3; Ef 6.11-13; Lc 13.24; Jo 6.27; Mt 10.34; Lc 22.36; 1 Co 16.13; 1 Tm 1.18,19). Palavras como essas me parecem claras, simples e inequívocas. Todas elas ensinam uma e a mesma grandiosa lição, se estivermos dispostos a acolhê-la: o verdadeiro cristianismo consiste em um combate, uma luta, uma guerra. Quem tenta negar a necessidade dessa “luta”, ensinando que devemos nos sentar passivamente, apenas “submetendo-nos a Deus”, na minha opinião, parece ter compreendido mal a sua Bíblia e está cometendo um sério equívoco.

De uma coisa você pode ter certeza: todo membro batizado de igreja, ao menos em sua declaração de fé, é um "soldado de Cristo Jesus", comprometido a lutar contra o pecado, o mundo e o diabo sob o estandarte de Cristo. Quem duvidar disso faria bem em revisitar os fundamentos de sua fé e aprender seu conteúdo. A maior falha de muitos membros das igrejas cristãs espalhadas por nosso país é o total desconhecimento dos princípios e ensinamentos que professam. Todavia devemos olhar para a nossa igreja local e verificar se isso também não está ocorrendo em sua vida particular.

Independentemente de sermos batizados ou membros de uma igreja, uma verdade permanece: o combate cristão é uma realidade imponente, um assunto de extrema importância. Não se trata de questões secundárias, como a governança eclesiástica ou o cerimonial da igreja – pontos nos quais as pessoas podem divergir e ainda assim alcançar o céu. Pelo contrário, é uma imposição. É preciso combater. As cartas de Jesus Cristo às sete igrejas não oferecem promessas, exceto para aqueles que "vencerem". Onde há graça, haverá, inevitavelmente, conflito espiritual. O crente é um soldado. Não há santidade sem luta. As almas salvas sempre serão aquelas que travaram um árduo combate.

Trata-se de um combate ditado por uma necessidade absoluta. Não devemos imaginar que podemos permanecer neutros e impassíveis nesta guerra. Tal postura pode ser possível em conflitos entre nações, mas é completamente inviável no embate da alma. A pretensa política de não-interferência, o plano de simplesmente deixar as coisas como estão – nada disso funciona no contexto do conflito cristão. De forma alguma, ninguém pode esquivar-se de servir sob a alegação de ser "um homem pacífico". Estar em paz com o mundo, com a carne e com o diabo é estar em inimizade com Deus; é estar seguindo o caminho largo que leva à perdição. Não temos escolha nem opção: teremos de combater ou estaremos perdidos. E neste ponto quero fazer dois destaques:

  1. É um combate de necessidade universal. Nenhuma categoria, classe ou faixa etária pode pleitear isenção ou escapar dessa luta. Pastores e fiéis, pregadores e ouvintes, jovens e idosos, pessoas influentes e gente simples, ricos e pobres, nobres e plebeus, governantes e súditos, proprietários de terras e trabalhadores, sábios e ignorantes – todos, sem exceção, precisam pegar em “armas” e marchar para a guerra. Todos nós, por natureza, possuímos um coração repleto de orgulho, incredulidade, indolência, mundanismo e pecado. Todos vivemos em um mundo cheio de armadilhas, abismos e precipícios para a alma. Cada um de nós enfrenta um diabo ativo, incansável e malicioso, sempre à espreita. Todos, desde o presidente no Palácio da Alvorada até o trabalhador humilde em sua oficina, precisamos combater se quisermos ser verdadeiramente livres.

  2. É um combate de necessidade perpétua. Este conflito não conhece períodos de descanso ou tréguas. Tanto nos dias de semana quanto nos domingos, em casa ou em público, nas pequenas coisas como o autocontrole da língua e do temperamento, quanto em grandes questões como a gestão de reinos e impérios – o combate cristão necessariamente prossegue sem interrupção. O adversário contra o qual lutamos jamais tira férias, nunca cochila e jamais se rende ao sono. Enquanto pudermos respirar, teremos de manter a armadura posta, lembrando-nos sempre de que estamos em território inimigo. Uma vez li em algum livro alguém dizer: "Até mesmo às margens do Jordão, encontro Satanás mordiscando meus calcanhares". Sim, precisaremos combater até a morte.

Consideremos cuidadosamente essas afirmações. Asseguremo-nos de que nossa fé pessoal seja real, genuína e autêntica. O sintoma mais triste de muitos que se dizem cristãos é a total ausência de qualquer vestígio de conflito ou combate em sua prática. Eles comem, bebem, vestem-se, trabalham, divertem-se, ganham seu dinheiro, gastam-no e raramente participam de atividades religiosas formais, talvez apenas uma ou duas vezes por mês, quando participam. Contudo, o grande conflito espiritual – com suas vigílias e lutas, suas agonias e ansiedades, suas batalhas e competições – parece ser completamente desconhecido para eles. Cuidemos para que esse não seja também o nosso caso. O pior estado para uma alma é quando "o valente, bem armado, guarda a sua própria casa e ficam em segurança todos os seus bens..." – quando ele cativa homens e mulheres "para cumprirem a sua vontade" e estes não lhe oferecem a menor resistência. As piores algemas são aquelas que o prisioneiro não sente nem vê (ver Lc 11.21; 2 Tm 2.26).

Podemos encontrar consolo em nossas almas se reconhecermos a existência dessa luta e conflito internos. Esta é uma companhia constante da santidade cristã autêntica. Não é tudo, eu sei, mas é uma parte crucial. Percebemos, no íntimo do nosso coração, um conflito espiritual em curso? Sentimos a carne lutando contra o espírito e o espírito lutando contra a carne, de modo que não conseguimos fazer o que gostaríamos? (ver Gl 5.17) Temos consciência de dois princípios dentro de nós que disputam o domínio? Pois bem, agradeçamos a Deus por isso! Esse é um bom sinal. É uma forte indicação da grandiosa obra interna da santificação.

Todos os verdadeiros crentes são soldados. Qualquer coisa é melhor do que a apatia, a estagnação, o torpor e a indiferença. Se isso está acontecendo conosco, significa que estamos em uma condição espiritual superior à de muitos. A maioria dos cristãos apenas de nome não se deixa perturbar por qualquer sentimento desse tipo. Claramente, não somos aliados de Satanás. Assim como os governantes deste mundo, ele não luta contra seus próprios súditos. O próprio fato de sermos atacados por ele deveria nos encher de esperança. Reafirmo: encontremos consolo nesse conflito. Um filho de Deus distingue-se por dois grandes sinais: pode ser reconhecido tanto pela sua guerra interna quanto pela sua paz interior."


Segunda Lição: Cristianismo Genuíno - A Épica Batalha da Fé

Passo agora a considerar um segundo aspecto essencial: o verdadeiro cristianismo é um combate de .

Nesse sentido, a luta cristã difere completamente dos conflitos mundanos. Não depende de força física, de agilidade ou de velocidade. No combate cristão, não utilizamos armas carnais, mas sim espirituais. A fé é o eixo em torno do qual toda a vitória espiritual gira. Nosso sucesso depende inteiramente dela.

A fé na veracidade da Palavra escrita de Deus é o alicerce fundamental do caráter de um soldado cristão. Ele é quem é, faz o que faz, pensa o que pensa, age como age, espera o que espera e se comporta da maneira que se comporta por uma razão simples: ele confia em certas verdades reveladas e estabelecidas nas Sagradas Escrituras. “Pois é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que recompensa aqueles que o buscam” (Hb 11.6).

Muitos, em nossos dias, apreciam imensamente uma religião sem doutrinas ou dogmas. Isso pode parecer ótimo à primeira vista, ou admirável de longe. Contudo, quando nos sentamos para analisar e refletir, descobrimos que tal conceito é impossível. Nenhuma pessoa será ou fará algo significativo na fé cristã sem antes crer em algo. Mesmo aqueles que defendem a lamentável e desconfortável posição dos deístas são forçados a confessar que acreditam em alguma coisa. Apesar de todo o seu amargo desprezo pela teologia dogmática e pelo que chamam de “credulidade cristã”, eles próprios possuem alguma forma de fé.

No caso dos crentes autênticos, a fé é a própria espinha dorsal de sua existência espiritual. Ninguém consegue combater decisivamente o mundo, a carne e o diabo sem que certos princípios grandiosos estejam gravados em seu coração, nos quais ele acredita. Ele talvez nem saiba definir esses princípios com clareza ou colocá-los por escrito. No entanto, eles estão presentes e, consciente ou inconscientemente, formam as raízes de sua fé. Onde quer que você encontre alguém lutando vigorosamente contra o pecado e buscando dominá-lo – seja rico ou pobre, instruído ou sem estudo –, pode ter certeza de que há princípios fundamentais nos quais essa pessoa crê.

Não existe uma vida correta desacompanhada de fé e de crença vivas. A vida, o centro e a mola-mestra do caráter do soldado cristão, é a fé especial na pessoa, na obra e no ofício de nosso Senhor Jesus Cristo.

Mediante a fé, o crente enxerga um Salvador invisível que o amou e se entregou por ele; que pagou toda a sua dívida; que carregou seus pecados; que apagou suas transgressões; que ressuscitou dos mortos por sua causa e que agora intercede por ele no céu, como seu Advogado, à direita de Deus Pai. Ele vê a Jesus e se apega a Ele. Dessa forma, contemplando o Salvador e confiando Nele, o crente desfruta de paz e esperança e combate voluntariamente todos os inimigos de sua alma.

O crente reconhece seus inúmeros pecados – seu coração fraco, um mundo repleto de tentações, o diabo sempre ativo. Se olhasse apenas para essas coisas, facilmente se desencorajaria. Todavia, ele também contempla um poderoso Salvador que intercede por ele, um Salvador que se compadece. Contempla o sangue de Jesus, Sua justiça, Seu eterno sacerdócio – e acredita que tudo isso lhe pertence. Ele vê a Jesus e descansa Nele com todo o seu fardo. Olhando para o Salvador, o crente segue lutando com ânimo, com a mais plena confiança de que será mais do que vencedor, “por meio daquele que nos amou” (Rm 8.37)."

A fé vibrante e contínua na presença e disposição de Cristo para nos ajudar é o segredo do sucesso na batalha do soldado cristão.

É crucial lembrar que a fé se manifesta em diferentes graus. Nem todos confiam da mesma forma, e até mesmo um indivíduo experimenta altos e baixos na intensidade de sua fé, crendo mais profundamente em certos momentos do que em outros. A intensidade da fé do crente determina seu desempenho na luta: ele obtém vitórias ou sofre reveses, triunfa ou perde batalhas ocasionais. O crente com maior fé será o soldado mais feliz e confiante nessa batalha. Nada alivia tanto as ansiedades do conflito quanto a certeza do amor de Cristo e Sua proteção contínua. Nada o capacita tanto a suportar os desafios, as vigílias, as lutas e os confrontos com o pecado quanto a convicção inabalável de que Cristo está sempre ao seu lado e que seu sucesso é garantido. É o “escudo da fé” que apaga todos os dardos inflamados do maligno. O cristão é aquele que pode declarar: “Sei em quem tenho crido”, e afirmar nos momentos de sofrimento: “Não me envergonho”.

O autor de frases marcantes como: “Por isso não desanimamos”, e “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação”, foi também quem escreveu: “Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas”. Ele declarou: “Esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus”; e, na mesma epístola: “O mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo”. Foi ele quem afirmou: “Porquanto, para mim, o viver é Cristo”, e também: “Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação”, concluindo: “Tudo posso naquele que me fortalece”. Sim, quanto maior a fé, maior a vitória! Quanto maior a fé, maior a paz interior! (Ver Ef 6.16; 2 Tm 1.12; 2 Co 4.16-18; Gl 2.20; 6.14; Fp 1.21; 4.11,13.). O apóstolo Paulo, escritor dessas frases bíblicas entendia essa constante batalha na fé.

É impossível superestimar o valor e a importância da fé. Com razão, o apóstolo Pedro a chamou de “preciosa” (2 Pe 1.1). Faltar-me-ia tempo para relatar sequer uma pequena fração das vitórias que, pela fé, os soldados cristãos têm alcançado.

Olhemos para a Bíblia, lendo Hebreus 11 com atenção. Lá está a longa lista dos heróis da fé, cujos nomes foram registrados, desde Abel até Moisés, muito antes de Cristo nascer da Maria para nos trazer vida e imortalidade à plena luz do evangelho. Observemos quantas batalhas eles venceram no conflito contra o mundo, a carne e Satanás. E lembremo-nos: foi a fé que lhes garantiu tantas vitórias. Esses homens aguardavam o Messias prometido. Eles viram o Invisível. “Pois, pela fé, os antigos obtiveram bom testemunho” (Ver Hb 11.2-27).

Examinemos também as páginas da história da Igreja primitiva. Consideremos como os crentes daquela época mantiveram firmemente sua fé, mesmo diante da morte, inabaláveis pelas mais ferozes perseguições impostas pelos imperadores pagãos. Ao longo dos séculos, surgiram líderes inspiradores como Policarpo e Inácio, prontos a dar suas vidas para não negar a Cristo. Multas, prisões, torturas, a fogueira e a espada foram incapazes de esmagar o espírito daquele valoroso exército de mártires cristãos. Todo o poder da Roma imperial, a senhora do mundo, mostrou-se impotente para apagar a religião que teve início entre alguns poucos pecadores e publicanos na Palestina! Lembremos, ainda, que a crença em um Jesus invisível foi a grande força da Igreja primitiva. Eles conquistaram seus triunfos por meio da fé.

De forma similar, examinemos a história da Reforma Protestante. Estudem as vidas de seus principais campeões – Wycliffe, Huss, Lutero, Calvino, Ridley, Latimer e Hooper. Observem como esses corajosos soldados de Cristo permaneceram firmes contra inúmeros adversários, prontos a morrer em defesa de seus princípios. Quantas batalhas tiveram de travar! Quantas controvérsias enfrentaram! Quantas contradições foram forçados a tolerar! Quanta determinação inabalável demonstraram contra um mundo armado! E então, lembremo-nos: a confiança em um Jesus invisível foi o grande segredo de sua força. Sim, eles venceram mediante a fé.

Pensemos nas figuras que deixaram as marcas mais profundas na história eclesiástica dos últimos quinhentos anos. Vejamos nomes como Wesley, Whitefield, Venn e Romaine, que se destacaram, muitas vezes sozinhos em sua geração, impulsionando o reavivamento do cristianismo evangélico na Inglaterra (a Inglaterra teve uma um importante papel na história do cristianismo pós-reforma). Isso ocorreu mesmo diante da oposição de figuras de alto escalão, da calúnia, do ridículo e da perseguição de noventa por cento dos cristãos professos em sua própria nação. Observemos homens como William Wilberforce, Havelock e Hedley Vicars, que testemunharam de Cristo nas situações mais inoportunas e desafiadoras, como na própria Casa dos Comuns (equivalente ao nosso Parlamento Federal), em Londres. Essas nobres testemunhas jamais hesitaram, até o fim, conquistando o respeito até mesmo de seus adversários mais determinados. E lembremo-nos: a confiança em Cristo foi a chave da notável força de caráter que demonstraram. Pela fé, eles viveram, agiram, resistiram e venceram.

Deseja viver como um soldado de Cristo? Então, ore pedindo por fé. É um dom de Deus, e aqueles que o pedirem nunca o farão em vão. Contudo, é preciso confiar antes de pedir. Se as pessoas são inativas na fé cristã, é porque lhes falta crer. A fé é o primeiro passo em direção ao céu.

Almeja lutar a boa luta cristã com sucesso e prosperidade? Então, que ore por um desenvolvimento contínuo em sua fé. Que viva em Cristo, se aproxime cada vez mais Dele, apegando-se a Ele com mais firmeza a cada dia. Que sua oração diária seja a dos discípulos: “Aumenta-nos a fé” (Lc 17.5). Vigie com diligência a sua fé, se a possui. Ela é a cidadela do caráter do crente, da qual depende toda a segurança de sua fortaleza. É o ponto onde Satanás busca lançar seus ataques. Tudo estará à mercê dele, caso a fé seja abalada. Neste aspecto, se valorizamos a vida, é imperativo que montemos guarda com atenção redobrada.


Terceira Lição: A Verdadeira Fé Cristã - Uma Luta Honrosa

Para encerrar, quero destacar o seguinte: O verdadeiro cristianismo é uma luta honrosa, ou como a Bíblia chama: um bom combate.

"Bom" é um adjetivo curioso para se aplicar a qualquer combate. Todas as guerras deste mundo são, em maior ou menor grau, desastrosas. É inegável que, em certos casos, a guerra se torna uma necessidade inevitável para garantir a liberdade dos povos e para evitar que os fracos sejam oprimidos pelos poderosos. Ainda assim, a guerra é um mal. Ela envolve imensa quantidade de sofrimento e derramamento de sangue. Arremessa milhares de vidas, totalmente despreparadas, à eternidade. Desperta as piores paixões humanas. Causa vasto desperdício e destruição material. Inunda lares pacíficos com a dor de viúvas e órfãos. Disseminou pobreza, eleva impostos e gera desgraça nacional. Desestabiliza a ordem social. Interrompe a evangelização e o progresso das missões cristãs. Em suma, a guerra é um mal imenso e incalculável, por isso, todo aquele que ora deveria suplicar dia e noite: "Senhor, concede-nos paz em nosso tempo". No entanto, há uma guerra que é enfaticamente "boa", na qual não se manifesta o elemento do mal. Essa é a batalha cristã. Esse é o conflito da alma.

Mas, então, quais razões tornam o combate cristão uma "boa batalha"? Quais aspectos fazem essa luta ser superior às guerras deste mundo? Vamos analisar essa questão abertamente.

Não me atrevo a prosseguir sem antes esclarecê-la. Não quero que alguém comece a vida de um soldado cristão sem antes considerar o custo. É fundamental que todos saibam que, para alcançar a santidade e ver o Senhor, é preciso engajar-se nessa luta. E também que o combate cristão, embora espiritual, é real e desafiador. Tal batalha exige coragem, bravura e perseverança. No entanto, quero que vocês reconheçam que há um encorajamento vasto para aqueles que desejarem iniciar essa jornada. As Escrituras não chamam o combate cristão de "bom combate" sem motivo ou razão válidos. Permitam-me explicar o que quero dizer:

I. O combate cristão é bom porque ocorre sob a liderança do melhor dos generais. O Líder e Estrategista de todos os crentes é nosso divino Salvador, o Senhor Jesus Cristo – possuindo sabedoria perfeita, amor infinito e poder onipotente. Nosso Capitão da Salvação sempre conduz Seus seguidores ao triunfo. Ele nunca faz movimentos em vão, jamais erra em Seus planos ou comete equívocos. Seus olhos estão atentos a cada um de Seus seguidores, do maior ao menor. O mais humilde soldado de Seu exército jamais é esquecido. Os mais fracos e vulneráveis são cuidados, lembrados e mantidos em segurança para a salvação eterna. As almas que Ele comprou e redimiu com Seu próprio sangue são preciosas demais para se perderem ou serem descartadas. Isso, sem dúvida, é bom!

II. O combate cristão é bom porque contempla o melhor auxílio. Mesmo que cada crente seja, em si mesmo, fraco, o Espírito Santo passou a habitar nele, e seu corpo se tornou templo do Espírito de Deus. Escolhido por Deus Pai, purificado pelo sangue do Filho e renovado pelo Espírito Santo, ele não entra na batalha cristã por conta própria nem está sozinho nela. Deus Espírito Santo o instrui diariamente, conduzindo-o, guiando-o e direcionando-o. Deus Pai o protege por meio de Seu poder onipotente. Deus Filho intercede por ele a cada instante, assim como Moisés fez no monte enquanto os israelitas combatiam no vale, abaixo. Uma unidade a três, como essa, jamais poderá ser rompida! As provisões divinas e o sustento diário do Senhor jamais falharão ou faltarão ao crente. Suas estratégias de guerra são infalíveis. Seu pão e água são garantidos. Por mais fraco que um crente possa parecer, até mesmo um "verme", ele se torna forte no Senhor, capaz de realizar grandes feitos. Isso, com certeza, é bom!"

III. O combate cristão é um bom combate porque se apoia nas melhores promessas. Cada crente recebeu promessas grandiosas e preciosas – todo o "Sim" e o "Amém" que há em Cristo – promessas que, sem dúvida, serão cumpridas. Afinal, foram feitas por Alguém que não pode mentir, Alguém que possui o poder e a vontade de honrar Sua Palavra. “Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça.” “E o Deus da paz, em breve, esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás.” “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus.” “Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando, pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.” “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão.” “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.” “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei.” “Porque eu estou bem certo de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem coisas do presente, nem do porvir, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.14; 16.20; Fp 1.6; Is 43.2; Jo 10.28; 6.37; Hb 13.5; Rm 8.38-39). Palavras como essas valem ouro! Quem não sabe que promessas de ajuda iminente animaram os defensores da cidade de Jerusalém por anos no Antigo Testamento. No entanto, todas essas promessas se tornam insignificantes em comparação com o rico tesouro que os crentes possuem: as promessas eternas de Deus. Isso, sem dúvida, é bom!

IV. O combate cristão é um bom combate porque é travado com os melhores propósitos e resultados. É verdade que há lutas intensas, conflitos, ferimentos, escoriações, vigílias, jejuns e fadigas nessa batalha. Contudo, cada crente, sem exceção, é mais do que vencedor “por meio daquele que nos amou” (Rm 8.37). Nenhum soldado de Cristo se perde, desaparece ou é deixado morto no campo de batalha. Não haverá necessidade de lamentar baixas, e nenhuma lágrima precisará ser derramada por qualquer soldado ou oficial do exército de Cristo. A lista final dos convocados, no último dia, será idêntica à do primeiro. Assim será a chegada do exército cristão na “cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador” (Hb 11.10). Nenhum deles faltará. As palavras de nosso grande Capitão serão confirmadas: “Não perdi nenhum dos que me deste” (Jo 18.9). Isso, sem dúvida, é bom!

V. O combate cristão é bom porque beneficia a alma de quem dele participa. Todas as outras guerras têm uma tendência perniciosa, ameaçadora e desmoralizante. Elas despertam as piores paixões da mente humana. Endurecem a consciência e minam os alicerces da religião e da moral. Somente o combate cristão tem o poder de despertar o melhor que resta no ser humano. Essa luta promove a humildade e o amor, atenua o egoísmo e o mundanismo, e leva as pessoas a depositarem seus afetos nas coisas do alto. Idosos, enfermos e moribundos jamais se arrependeram de terem travado as batalhas de Cristo contra o pecado, o mundo e o diabo. Eles lamentam apenas não terem começado a servir a Cristo muito antes. A experiência do eminente crente Philip Henry, que fez parte do período da Reforma Protestante não é única. Em seus últimos anos de vida, ele disse à sua família: “Peço que todos vocês reflitam sobre o fato de que uma vida dedicada ao serviço de Cristo é a vida mais feliz que um homem pode ter nesta terra.” Isso, sem dúvida, é bom! Irmãos, lutem por Cristo, trabalhem por Cristo e abandonem as picuinhas.

VI. O combate cristão é um bom combate porque faz bem ao mundo. Todas as outras guerras têm um efeito devastador, destrutivo e prejudicial. A passagem de um exército por qualquer região é uma terrível desgraça para a população local. Por onde quer que passe, empobrece, devasta e prejudica. Bem diferente são os efeitos produzidos pelos soldados cristãos. Onde quer que vivam, eles são uma bênção. Elevam os padrões de religião e moral. Invariavelmente, eles freiam o avanço do alcoolismo, o desrespeito ao descanso dominical, o desperdício com coisas fúteis e a desonestidade. Seus próprios adversários se veem obrigados a respeitá-los. Onde quer que se vá, raramente se descobrirá que quartéis e tropas beneficiam a vizinhança. Contudo, em qualquer lugar, a presença de alguns poucos crentes verdadeiros é uma bênção. Isso, sem dúvida, é bom!

VII. Finalmente, o combate cristão é bom porque resultará em uma recompensa gloriosa para todos os participantes. Quem pode calcular o valor dos galardões que Cristo dará a todo o Seu povo fiel? Quem pode estimar as coisas maravilhosas que nosso divino Capitão reservou para aqueles que O confessarem diante dos homens? Uma nação agradecida pode presentear seus guerreiros vitoriosos com medalhas, condecorações, pensões, títulos de nobreza, honrarias e afins. No entanto, nada disso é duradouro ou permanente, nada que possa ser levado além do túmulo. O mais belo palácio só pode ser desfrutado por alguns anos. Os mais bravos generais e militares um dia terão de enfrentar o pior de todos os terrores. Melhor, infinitamente melhor, é a posição daquele que combate o pecado, o mundo e o diabo sob o estandarte de Cristo. Talvez esse crente não seja grandemente elogiado pelos homens enquanto vivo, e talvez desça ao túmulo com poucas honrarias; no entanto, ele terá algo muitíssimo melhor, pois é permanente. Ele receberá “a imarcescível coroa da glória” (1 Pe 5.4). Isso, sem dúvida, é bom!

Guardemos na mente o fato de que o combate cristão é um bom combate – realmente bom, verdadeiramente bom, enfaticamente bom. Por enquanto, vemos apenas uma parte dele; vemos o conflito, mas não o fim; vemos a campanha, mas não a recompensa; vemos a cruz, mas não a coroa. Vemos apenas algumas poucas pessoas humildes, de espírito quebrantado, penitentes, dedicadas à oração, enfrentando dificuldades e desprezadas pelo mundo; mas não vemos a mão de Deus protegendo-as, nem o rosto de Deus sorrindo para elas, nem o reino da glória preparado para elas. Essas coisas ainda serão reveladas no tempo certo. Não julguemos pelas aparências. Há mais no combate do crente do que somos capazes de perceber.

E agora, permitam-me concluir o meu sermão com algumas palavras de aplicação prática. Nossa sorte é lançada em tempos em que o mundo parece pensar em pouco mais do que batalhas e conflitos. O terror assola a alma de mais de uma nação, e a alegria de muitas belas cidades está se esvaindo. Certamente, em tempos como os nossos, um ministro do evangelho pode, com razão, convocar os homens a se lembrarem de seu combate espiritual. Deixe-me apresentar algumas palavras finais sobre essa grande luta da alma.

  1. É possível que você esteja lutando arduamente pelas recompensas deste mundo. Talvez você esteja usando todas as suas energias para obter dinheiro, posição, poder, prazer e descanso. Se esse é o seu caso, então, tome cuidado. Sua semeadura resultará em uma colheita de amargo desapontamento. A menos que você reavalie seus planos, seu fim será a tristeza. Milhares de pessoas trilharam o caminho que você segue, despertando tarde demais para descobrir que ele termina em miséria e ruína eternas. Elas lutaram intensamente por riquezas, honras, posição social e ascensão pessoal, virando as costas para Deus e Jesus Cristo, para o céu e o mundo vindouro. Mas, qual foi o destino dessas pessoas? Com muita frequência, elas descobriram que suas vidas foram um colossal engano. No fim, você dirá: “Lutei, lutei; mas a vitória não foi conquistada”.

Pela sua própria felicidade, decida hoje mesmo se posicionar ao lado do Senhor. Deixe para trás sua negligência e incredulidade passadas. Abandone os caminhos de um mundo sem reflexão ou propósito. Tome a sua cruz e torne-se um bom soldado de Cristo. “Combate o bom combate da fé”. Isso o tornará uma pessoa feliz e segura.

Pense que mesmo aqueles que não têm motivações religiosas muitas vezes lutam com afinco pela liberdade. Lembre-se de gregos, romanos, suíços, etc, que deram tudo, até a vida, antes de se submeterem a um jugo estrangeiro. Que o exemplo deles sirva de estímulo para você. Se as pessoas podem fazer tanto por uma recompensa perecível, quanto mais você pode fazer por uma coroa incorruptível! Desperte para a miséria de ser um escravo. Levante-se e lute pela vida, pela felicidade e pela liberdade.

Não hesite em se alistar sob o estandarte de Cristo, nem em começar a lutar. O grande Capitão da nossa salvação não rejeita ninguém que vem a Ele. Assim como Davi na caverna de Adulão, Ele está disposto a acolher a todos que o buscam, por mais indignos que se sintam. Ninguém que se arrepende dos seus pecados e confia Nele é indigno demais para se alistar nas fileiras do exército de Deus. Todos que se achegam a Ele pela fé são admitidos, revestidos, armados, treinados e, por fim, conduzidos à vitória completa. Não tema iniciar a luta ainda hoje. Ainda há lugar para você. Não tema continuar lutando, uma vez que se alistou. Quanto mais resoluto e dedicado você for como soldado, mais o combate lhe trará conforto. Sem dúvida, você frequentemente enfrentará a fadiga, a tribulação e batalhas árduas antes que sua luta termine. Porém, que nenhuma dessas coisas o desanime. Maior é Aquele que está ao seu lado do que todos os que estão contra você. Liberdade eterna ou cativeiro eterno: essas são as alternativas à sua frente. Escolha a liberdade e lute até o fim.

  1. Mas seja honesto com seu Senhor. Não queira fazer do Reino de Deus o seu reino particular, achando que somente sua opinião, seu ponto de vista, sua visão sobre os assuntos são os corretos. O Reino é de Deus, que levanta e quem que depõem é o Senhor. É Ele quem trabalha por seu povo, no coração do seu povo e através de seu povo. Digo isso porque muitas vezes essa é a desculpa para não “combater” no Reino de Deus e para não comungar com os irmãos. É impossível dizer que ama a Deus e não ama a sua igreja.

  2. III. Talvez você já conheça o combate cristão e seja um soldado treinado e experiente. Se for esse o caso, aceite uma última palavra de conselho e encorajamento de um companheiro de jornada. Falo tanto comigo quanto com você. Vamos despertar nossa mente com lembranças. Há certas coisas que nunca é demais recordar. Lembremos que, para lutar com êxito, precisamos revestir-nos de toda a armadura de Deus, nunca a depor enquanto vivermos. Não podemos desprezar sequer uma peça da nossa armadura. O cinto da verdade, a couraça da justiça, o escudo da fé, a espada do Espírito e o capacete da salvação – cada uma dessas peças, e todas juntas, são essenciais. Não podemos negligenciar qualquer peça dessa armadura por um dia sequer. No céu não compareceremos revestidos de armadura, mas em trajes gloriosos. Aqui, no entanto, a nossa armadura precisa ser usada noite e dia. Teremos de caminhar, trabalhar e dormir revestidos da nossa armadura ou não seremos verdadeiros soldados de Cristo. Não esqueçamos as solenes palavras inspiradas de um desses santos guerreiros, que partiu para o seu descanso há vinte e um séculos: “Nenhum soldado em serviço se envolve em negócios desta vida, pois seu objetivo é satisfazer àquele que o arregimentou” (2 Tm 2.4). Que jamais nos esqueçamos dessa afirmação!

  3. Lembremos que alguns, que por um tempo pareceram bons soldados, falando com grande convicção sobre o que fariam, vergonhosamente desertaram no dia da batalha.

  4. Nunca nos esqueçamos de Balaão, de Judas Iscariotes, de Demas e da esposa de Ló. Não importa o quão fracos nos sintamos, é nosso dever ser cristãos autênticos, genuínos, verdadeiros e sinceros.

  5. Lembremo-nos de que os olhos do nosso Salvador amoroso estão sobre nós, de manhã, ao meio-dia e à noite. Ele jamais permitirá que sejamos tentados além do que podemos suportar. Ele compreende nossa fraqueza, pois Ele mesmo sofreu ao ser tentado. Ele sabe o que essas batalhas e conflitos espirituais envolvem, pois Ele mesmo foi atacado pelo príncipe deste mundo. Visto que contamos com um Sumo Sacerdote tão experiente, que é Jesus, o Filho de Deus, mantenhamos firmemente a nossa confissão (ver Hb 4.14).

  6. Lembremo-nos de que milhares de soldados, antes de nós, combateram na mesma guerra em que estamos lutando, e saíram mais que vencedores por meio Daquele que nos amou. Eles venceram pelo sangue do Cordeiro, e o mesmo pode acontecer conosco. O braço de Cristo continua tão poderoso quanto sempre foi, e o coração de Cristo permanece tão amoroso quanto sempre foi. Aquele que salvou homens e mulheres antes de nós é Aquele que nunca muda. “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles”! Diante disso, é nosso dever desprezar nossas dúvidas e medos. Tornemo-nos “imitadores daqueles que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas”, os quais agora aguardam que nos juntemos a eles (Hb 7.25 e 6.12).

Finalmente, lembremo-nos de que o tempo é curto e que a volta do Senhor se aproxima rapidamente. Mais algumas batalhas e a última trombeta soará, e o Príncipe da Paz virá para reinar. Mais algumas lutas e conflitos, e a guerra espiritual será enterrada no passado para sempre, junto com o pecado, a tristeza e a morte. Por essa razão, combatamos até o fim, sem nunca nos render. Disse o Capitão da nossa salvação: “O vencedor herdará estas coisas, e eu lhe serei Deus e ele me será filho” (Ap 21.7).

Gostaria de encerrar tudo o que abordamos com as palavras de John Bunyan, em uma das mais belas passagens de O Peregrino, onde ele descreve o desfecho de um dos mais santos e notáveis peregrinos:

Depois disso, ouviu-se o rumor de que o Sr. Valente-pela-verdade fora enviado a uma convocação pelo mesmo aviso que fora enviado aos outros. E foi-lhe dado este recado para ele soubesse que a convocação era verdadeira: “E se quebre o cântaro junto à fonte” (Ec 12.6). Quando ele compreendeu o recado, chamou os seus amigos e falou-lhes a esse respeito. Então acrescentou: “Estou indo para a casa de meu Pai e embora tenha chegado até aqui com grandes dificuldades, todavia, não me arrependo de tudo quanto tive de experimentar até chegar a este ponto. Darei a minha espada àquele que me substituir na peregrinação, e minha coragem e minha habilidade àquele que puder obtê-las. Minhas cicatrizes e ferimentos, levarei comigo como testemunhas de que combati nas batalhas daquele que agora será o meu galardoador!” Chegado o dia em que ele teria de ir para o seu lar celestial, muitos o acompanharam até à beira do rio. E enquanto descia para o rio, disse: “Oh, morte, onde está a tua vitória?” Dessa maneira, atravessou o rio e todas as trombetas soaram, saudando-o, do outro lado.” - O episódio no qual aparece o personagem “Valente-pela-verdade” pertence à segunda parte do livro O Peregrino, publicada pela Editora Mundo Cristão, com o título de “A Peregrina” (BUNNYAN, John. A Peregrina. São Paulo: Mundo Cristão, 2006).

Que Deus nos abençoe em Cristo Jesus. Vamos nos colocar em pé.

Que nosso desfecho neste mundo seja igualmente glorioso! E que jamais nos esqueçamos: sem luta, não haverá santidade em vida, nem coroa de glória na eternidade!

 

Compartilhe em suas redes sociais