Carnaval

Cultura, religião e a coerência da fé cristã
Publicado em 11/02/2026

Todos os anos, com a aproximação do carnaval, a mesma pergunta ressurge entre cristãos:
“Crente pode participar do carnaval?”

Não precisamos sequer nos alongar nos problemas morais amplamente associados ao carnaval. A própria sociedade reconhece que, nesse período, pecados como prostituição, lascívia, imoralidade sexual, pornografia, fornicação, adultério e bebedice são não apenas tolerados, mas incentivados e celebrados. 

A chamada “festa da carne” faz jus ao nome, exaltando exatamente aquilo que a Escritura nos chama a mortificar: 

‘’Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam.’’ Gálatas 5:19-21

O chamado cristão nunca foi para negociar com a carne, mas para crucificá-la, vivendo não segundo os desejos do corpo, mas segundo o Espírito.

‘’E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências.’’ Gálatas 5:24

Muitas vezes, essa pergunta não nasce de uma dúvida sincera, mas de uma busca por validação, o desejo de fazer algo sem carregar o peso da consciência. Curiosamente, enquanto cristãos relativizam, o próprio mundo tem sido mais honesto sobre o que o carnaval realmente representa.

“Escola de samba é macumba. Ainda que sejam para todos, não são de todos. Elas têm donos.”

Essa frase não foi dita por um pastor, nem por um líder evangélico, mas pelo coreógrafo carnavalesco reconhecido, Milton Cunha, alguém que vive o carnaval por dentro. A afirmação revela algo que muitos preferem ignorar: o carnaval tem identidade espiritual.

Quem vive o carnaval sabe o que ele é.

Carnaval e religiões afro-brasileiras: uma relação viva, não apenas histórica

É comum ouvir o argumento: “Ah, mas isso é só a origem…”

Esse argumento não se sustenta quando olhamos para a realidade atual. O carnaval não apenas nasceu em contextos religiosos pagãos, ele continua sendo uma expressão espiritual para muitos.

Diversos enredos de escolas de samba exaltam orixás, entidades indígenas e elementos das religiões de matriz africana. Ritmos, símbolos, vestimentas e coreografias são frequentemente inspirados em rituais religiosos. Para aqueles que praticam essas religiões, o carnaval não é apenas entretenimento: é manifestação de fé, identidade cultural e espiritual.

Não por acaso, uma crítica que ganhou força nas redes sociais foi clara: “Carnaval é religião, sim.” Essa afirmação partiu de pessoas do próprio meio secular, não da igreja.

Um contraste constrangedor: quem relativiza são os cristãos

Aqui surge um contraste inquietante.

De um lado, pessoas que não são cristãs, mas conhecem suas crenças, respeitam suas raízes e defendem com firmeza aquilo que creem, ainda que essas crenças sejam contrárias à Bíblia.

Do outro, muitos que se dizem cristãos, mas relativizam princípios bíblicos para não abrir mão do prazer, da aprovação social ou da diversão momentânea.

O apóstolo Paulo nos lembra:

“Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.” (Rm 12:2)

O problema não é o mundo agir como mundo. O problema é quando o cristão age como o mundo enquanto afirma servir a Cristo.

Casos na internet: quando o mau testemunho viraliza

Próximo ao carnaval, a internet tem sido palco de situações que escancaram essa incoerência.

A influenciadora Virgínia Fonseca, que se declara cristã, gerou forte repercussão ao participar do carnaval. A crítica mais dura não veio da igreja, mas do próprio meio secular, reafirmando: “Carnaval é religião.”

Da mesma forma, a cantora Claudia Leitte, ao ser questionada por se apresentar no carnaval enquanto se declara cristã, afirmou: “É mais uma questão interna do que externa.”

Essa frase revela uma compreensão equivocada da fé cristã.

A fé cristã nunca foi apenas interna

Biblicamente, o que cremos no coração se manifesta inevitavelmente na vida prática.

“Vós sois a luz do mundo.” (Mt 5:14)

“Porque a boca fala do que está cheio o coração.” (Mt 12:34)

A fé cristã não é apenas uma convicção íntima e invisível. Ela molda escolhas, comportamento, prioridades e testemunho público. Tiago reforça:

“A fé, se não tiver obras, por si só está morta.” (Tg 2:17)

Não se trata de legalismo, mas de coerência.

Quando o próprio mundo expõe a incoerência cristã

Algo ainda mais revelador surgiu nos comentários dessas discussões nas redes sociais. Alguns internautas, inclusive não cristãos, apontaram uma contradição evidente: segundo a própria teologia cristã, práticas religiosas que envolvem culto a orixás, entidades e espíritos são entendidas biblicamente como idolatria e, em última instância, culto a demônios.

Essa compreensão não nasce de preconceito cultural, mas da própria Escritura. O apóstolo Paulo afirma:

“As coisas que os gentios sacrificam, é a demônios que as sacrificam, e não a Deus; e eu não quero que vos torneis participantes com os demônios.”
(1 Coríntios 10:20)

Ou seja, na cosmovisão cristã, não existe neutralidade espiritual no culto. Toda adoração que não é dirigida ao Deus verdadeiro é, por definição bíblica, falsa adoração.

O ponto que esses internautas levantaram foi direto: como alguém pode se dizer cristão, afirmar crer na Bíblia, e, ao mesmo tempo, participar de um evento que, para muitos dos seus próprios protagonistas, é uma expressão espiritual ligada a crenças que o cristianismo considera incompatíveis com a fé cristã?

Aqui o problema do mau testemunho fica ainda mais evidente. Não são apenas cristãos alertando outros cristãos, é o próprio mundo percebendo a incoerência entre discurso e prática.

O escândalo não é a fé cristã, mas a falta de coerência

Jesus advertiu com seriedade:

“Qualquer que escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho.”
(Mateus 18:6)

O escândalo, neste caso, não está em afirmar que Cristo é o único Senhor, nem em rejeitar práticas incompatíveis com o evangelho. O escândalo está em confessar uma fé com os lábios e negá-la com as obras.

Paulo escreve a Tito:

“No tocante a Deus, professam conhecê-lo, entretanto, o negam por suas obras.”
(Tito 1:16)

Quando até pessoas de fora da fé cristã conseguem enxergar essa contradição, algo está profundamente errado.

Nossa luta não é contra o mundo, mas contra a carne

Muitas vezes dizemos que “o mundo está perdido”, mas a Escritura nos chama a olhar para dentro.

Paulo afirma:

“Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne.” (Gl 5:17)

“Andai no Espírito e jamais satisfareis os desejos da carne.” (Gl 5:16)

O mundo é coerente com o que crê. A pergunta que permanece é: por que nós, que servimos ao Deus vivo, tantas vezes não somos?

Um chamado à coerência cristã

Se até o mundo reconhece que o carnaval não tem nada a ver com o cristianismo, que fé é essa que tenta se adaptar ao invés de se submeter? Jesus nos chama a negar a nós mesmos:

“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” (Lc 9:23)

Negar a si inclui abrir mão de práticas que contradizem aquilo que confessamos com os lábios.

Conclusão: uma fé que glorifica a Deus

O chamado bíblico não é para isolamento cultural, mas para santidade visível. Uma fé que glorifica a Deus, edifica a igreja e não escandaliza o evangelho.

Que vivamos uma fé firme, coerente e centrada nas Escrituras, não moldada pelo desejo, pela cultura ou pela pressão social, mas pelo amor a Cristo.

“Portanto, quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” (1Co 10:31)

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