Este texto se trata de uma resenha literária, um resumo de uma obra com o intuito de apresentar ao leitor um bom livro e uma breve exposição sobre ele. Como é sabido, “O Peregrino” traz, de forma lúdica, verdades genuínas da Palavra de Deus vividas por um homem após a sua conversão. A intenção dessa resenha é fazer com que você, leitor, fique empolgado a fazer boas leituras e aproveitar com olhos eternos o que homens de Deus escreveram na história. “O Peregrino” é o conto do passado mais atual que se pode ver quando se trata de caminhos, obstáculos e a finalidade do ser humano. Então, vamos lá!

O Cristão em sua peregrinação

Seu nome era Cristão, da Cidade da Destruição. Através de Evangelista, um novo curso tomou e, peregrinando, por vários caminhos passou para encontrar com seu Senhor. Conhecer o seu caminho é um tanto fascinante; ler por onde andou, ainda mais instigante, como o espelho de um roteiro do que aguarda a vida do cristão protestante. Uma grande semelhança com o presente e com o passado. Hoje já não se passa por montanhas ou vales, mas será que, no correr das cidades e ruas, se vê a busca por uma preciosa eternidade?

Cristão, o personagem principal desta história, foi encontrado por Evangelista em sua cidade em tamanha angústia e desespero, sempre questionando como poderia ser salvo da destruição que estava por vir à cidade onde morava. Ele tinha um fardo nas costas, que ficava cada vez mais pesado, mas, dessa posição, por si só não conseguia sair. Evangelista lhe entregou um pergaminho, em que tinha inscrito: “Foge da ira futura”. Orientado a ir encontrar a porta estreita, ele sabia que através desta alcançaria a vida eterna.

Sua jornada se inicia com a presença de amizades inconstantes e obstinadas, apegadas aos valores deste mundo, que por vezes tentavam o persuadir a voltar para aquela antiga vida. Uma dessas amizades até permanece por um tempo, com o vislumbre dos benefícios da Cidade Celestial; porém, por ser inconstante, ao aparecer a primeira dificuldade, o amigo retorna ao que era antes. Mas Cristão segue em sua jornada, por vezes sozinho, por vezes acompanhado; encontra bons conselheiros e outros nem tanto; às vezes cai no buraco, mas sempre se levanta.

Em certo momento da jornada, ao passar por um morro íngreme em um sol escaldante, avistou uma bela árvore que o criador daquela terra havia colocado ali para o descanso dos peregrinos. Porém um descanso não era o bastante, e dormir parecia ser mais importante; mas o caminho ainda estava à sua frente, cada vez mais preocupante. Então o tempo logo vinha alarmante, e a noite, com seus medos horripilantes, trazia à sua memória que aquele sono custou horas no escuro e uma visão turva, tudo isso sem ajudantes.

Seu caminho muitas vezes era feliz, com companhias que o alegravam, verdadeiros irmãos. Alguns deles não participaram de todo o trajeto até a Cidade Celestial; outros foram até o final. Cada qual com sua importância, mas cada um, designado à sua missão, tinha que por esta passar. Mas eles sabiam que, em todas as circunstâncias por que passavam, estavam firmados no que os chamou para aquele trajeto, e nada podia afetar esta certeza. Ao chegarem ao final do caminho, tinham muito a agradecer. Nas etapas tortuosas e nas sombras que encontravam, eram sempre consolados pelo Espírito de Deus, pela certeza de um sacrifício que nada poderia abater.

Abaixo, um pequeno trecho do livro, quando Cristão se livra do seu fardo nas costas e continua seu caminho:

Até aqui cheguei sobrecarregado com meu pecado,
Ninguém podia abrandar a dor do que me era errado.
Até aqui chegar. Que lugar sem idade!
É aqui que começa a minha felicidade?
É aqui que o fardo das minhas costas se descarta?
Que aqui a corda que o prende a mim se parta!
Santa Cruz! Santo Sepulcro! Seja abençoado
O Homem que por mim foi humilhado.
(BUNYAN, 2019, p. 49)

Como peregrinos e forasteiros

A palavra de Deus é muito clara aos seus: “Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma, mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação” (1 Pedro 2:11-12). Em toda e qualquer circunstância, os cristãos não são deste mundo e não praticam as obras deste mundo; antes suas obras são vistas como a dos malfeitores do primeiro século que instauravam costumes diferentes aos do império e não idolatravam os deuses da época (Atos 19:23-26). Portanto, não estão de acordo com as obras deste mundo.

O livro de John Bunyan foi escrito em forma alegórica, isto é, mostra verdades espirituais através de uma história fictícia, mas intencionalmente traz uma profundidade além daquela que se está lendo. É provável que ao longo dessa apresentação o leitor se identifique com o personagem principal, o peregrino, que através de uma longa e exaustiva jornada busca chegar à Cidade Celestial. A caminhada árdua do protagonista se assemelha à realidade do verdadeiro crente, pois os cristãos foram designados a viver uma vida que contraria o mundo e que, portanto, pode ser turbulenta: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e símplices como as pombas. Acautelai-vos, porém, dos homens, porque eles vos entregarão aos sinédrios e vos açoitarão nas suas sinagogas” (Mateus 10:16-17).

Breve história de John Bunyan

John Bunyan (1628 – 1688) foi um pregador batista do século XVII que viveu em um período de grande turbulência política na Inglaterra, país que até o ano de 1649 era comandado por uma monarquia. Chega ao poder o revolucionário Oliver Cromwell e, com ele, ideais progressistas e uma personalidade forte, destituindo a monarquia inglesa e instaurando a república. Um dos pontos a serem destacados na república foi a tolerância religiosa e, com isso, o surgimento de diversos grupos independentes. Porém, depois de um breve hiato de 11 anos, a monarquia já havia sido instaurada novamente. Foi quando as perseguições a pregadores independentes começaram.

Filho de um latoeiro – viajante que consertava panelas, tachos e outros itens de metal -, Bunyan continuou na profissão de seu pai na pequena cidade de Elstow, onde ocorreu sua conversão e reconhecimento dos seus pecados e a necessidade da leitura da Palavra de Deus. Dessa forma, John se membrou à Igreja Independente, lugar onde, após algum tempo, ele começou a pregar. Nesse ínterim, a monarquia já havia sido instaurada novamente, e grupos religiosos que não eram vinculados ao Estado eram perseguidos. A comunidade onde Bunyan pregava era uma dessas coletividades, e o pregador logo foi forçado a não mais pregar, ou iria para a prisão.

Bunyan ficou preso por 12 anos, período em que escreveu sua principal obra, “O Peregrino” (The Pilgrim’s Progress) – tratada neste post -, e outras, como “Graça Abundante para o Principal dos Pecadores”, livro em que o leitor conhece com mais categoria sua história, e “A Guerra Santa: a grande batalha entre o bem e o mal na cidade de Alma Humana”. Apesar do infortúnio da prisão, este foi o local onde o autor escreveu esta e outras obras dentro do panorama cristão, livros que trazem uma excelente alegoria da realidade vivida pelos crentes.

Como Cristãos neste tempo

Por vezes a vida do servo de Deus é assim, como visto nesta história. O cristão busca por uma resposta ao seu fardo; encontra o alívio através d’Aquele que é o criador de todas as coisas, o único com o poder de perdoar. Anda com bons amigos que fazem a caminhada ser mais leve, no entanto, existem etapas de angústia e tristeza; mas são nelas que se aprimora a fortaleza. Há alguns momentos de erros e negligências, pois apesar de ele ter o melhor dos livros como tesouro, às vezes este só está ali na mesa, sem estar no coração.

Que este livro possa mostrar como o peregrino passou neste mundo estando firme no único fundamento, a pedra principal, Jesus Cristo, em quem se tem toda a firmeza e certeza dos caminhos por onde se vai passar.